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sábado, 24 de abril de 2010

Mais das antigas revelações sobre as relações da PF e FBI/CIA

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SOBERANIA ZERO

Do Blog Polícia e Segurança

Imagine-se a Drug Enforcement Administration (DEA), uma das 19 agências policiais norte-americanas - esta de combate ao narcotráfico -, numa operação, na fronteira dos Estados Unidos com o México. Imagine-se que tal operação, de US$ 3 milhões, é totalmente paga pelo governo brasileiro. Imagine-se que 15% desses US$ 3 milhões doados pelo governo brasileiro são usados pela DEA para pagar diárias, passagens aéreas, hospedagens de seus agentes e delegados. Isso, óbvio, só pode brotar numa imaginação muito fértil. Já o contrário existe. No Brasil.
Na fronteira norte do Brasil está em curso, há um ano e meio, a Operação Cobra. Os Estados Unidos pagam os US$ 3 milhões da operação, realizada pela Polícia Federal do Brasil.

Como tem sido norma, diárias, passagens e hospedagens de agentes e delegados do Brasil são, ao menos parte delas, pagas pelos norte-americanos. O dinheiro é da DEA.
O delegado Getúlio Bezerra, chefe da CGPRE, a divisão de repressão a entorpecentes da PF, em entrevista a CartaCapital (na página 30), confirma:
- De fato, uns 12%, não chega a 15% desses US$ 3 milhões deles, são usados para passagens, diárias, hospedagens. Mas tudo planejado com eles...
"Eles", os norte-americanos da DEA. Três anos depois de uma série de matérias de CartaCapital sobre a atuação da DEA, e da CIA, como hóspedes e financiadores da porção mais secreta e sensível das ações da PF do Brasil, surgem provas concretas.
As provas não estão na confirmação de Bezerra às informações sobre detalhes financeiro-administrativos da Operação Cobra. As provas surgiram numa CPI, a do Narcotráfico.
O Banco Central, a pedidos, entregou à CPI toda a movimentação de entrada e saída de dinheiro do País, via conta CC-5, entre os anos 1996/1999. Em meio à movimentação, o elo financeiro, a simbiose entre a Inteligência dos EUA e a PF do Brasil.
São dezenas de remessas. No total, aproximam-se dos R$ 2 milhões nesse período. E não são remessas em nome da instituição Polícia Federal. É dinheiro repassado em nome dos titulares da divisão de repressão a entorpecentes.
O mecanismo: o dinheiro entrava via CC-5 e Citibank. Na embaixada americana, em Brasília, a NAS - outra das agências antinarcóticos dos EUA, e controladora das verbas também da DEA - fazia, e ainda faz, o dinheiro seguir.
Em cheques, o dinheiro chegava, e chega, à divisão de repressão a entorpecentes da PF e entrava, como ainda entra, numa conta aberta em nome do titular da divisão. Conta com a sub-rubrica da divisão e movimentada por mais de um delegado.
No caso dos documentos obtidos por CartaCapital, remessas para uma conta aberta em nome do atual chefe da divisão, Getúlio Bezerra dos Santos, e do seu antecessor, Marco Antonio Cavaleiro.

No total, entre 1996 e 1999, uns R$ 1 milhão e 200 na conta aberta em nome de Cavaleiro e uns R$ 800 mil em nome de Bezerra. Claro que o Tribunal de Contas da União jamais ouviu falar nisso.
Antes deles, vale recordar, à época dos titulares da DRE Paulo Magalhães e Sergio Sakon, o mesmo sistema era usado.
O Ministério Público dispõe do material, o mesmo que chegou atualizado a uma CPI mais recente, a do Futebol, no Senado.
Nesta semana, o deputado Walter Pinheiro (PT-BA) encaminha requerimentos de informações sobre o tema ao general Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência e titular da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad).
O pedido de informações segue também para o ministro da Justiça, Miguel Reale, e à chefia da Polícia Federal.
São convidados a prestar esclarecimentos na Câmara, por solicitação de Walter Pinheiro, os ministros Cardoso e Reale, a chefia da PF e o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer.
Cavaleiro deixou o cargo em 1999, exonerado depois de trombar com o então diretor-geral da Polícia, Vicente Chelotti. Desde então, Bezerra é o titular na Entorpecentes.
A briga entre Chelotti e Cavaleiro é a responsável pelo surgimento do elo financeiro agora. Na CPI do Narcotráfico, quando surgiram as movimentações via CC-5, um delegado, ligado a Chelotti, mirando em Cavaleiro enviou-as para o diretor da PF, Agílio Monteiro.
O ofício seguiu seu curso e hoje repousa num conjunto de documentos "classificados", leia-se secretos, no 2º andar do prédio-sede da PF.
Um dos documentos, o enviado a All Bryant, da Assuntos de Narcóticos, a NAS. É o ofício 719 da DRE/Coordenação Geral Central de Polícia, de 24 de março de 2000.

Neste documento, que se segue a um pedido de explicações do diretor da PF sobre a movimentação via CC-5, Bezerra pede a Bryant:
- Solicito indicar as destinações, se possível, bem como esclarecer se houve a comprovação de suas aplicações (prestações de contas).
A 17 de maio de 2000, John C. Mariz, diretor-interino da NAS, responde. A resposta é um atestado do uso correto das verbas repassadas a Bezerra e a Cavaleiro.
Aliás, o que se discute aqui não é a honestidade, que mesmo adversários de ambos não colocam em dúvida, e sim a subserviência da PF, do governo do Brasil, a verbas e interesses norte-americanos.
John Mariz atesta; atestado que já é um resumo desta ópera:
- As transferências constando da sua lista enviada através da divisão foram realizadas de acordo com as regras estabelecidas pelo acordo de cooperação entre o governo da República Federativa do Brasil e o governo dos Estados Unidos para redução da demanda, prevenção do uso indevido e combate à produção e ao tráfico de entorpecentes.
Acordo esse de abril de 1995. Pelo Brasil, assinou o ministro das Relações Exteriores, Luís Felipe Lampreia. Pelo governo dos EUA, o então embaixador Melvyn Levitsky.

O acordo, renovado a cada ano desde um anterior, de 1986, é chamado de "Guarda-Chuva". É o que ele é. Um guarda-chuva que a tudo abriga e protege. O atual trata, genericamente, de projetos.
Projetos de repressão ao tráfico de drogas na Amazônia, de treinamento de agentes, de redução de demanda, do estabelecimento de unidades especiais e de apoio ao grupo especial de investigação. Em 2001, para tais projetos os EUA destinaram ao Brasil US$ 5 milhões e 792 mil.
Quando se chega à ingerência dos norte-americanos na PF, saca-se o acordo guarda-chuva como resposta. Uma resposta que será, sempre, incompleta.
Acordo ou convênio algum pode, sem ferir leis, autorizar a agência de um governo estrangeiro a depositar numa conta, em nome pessoal, de delegados da Polícia Federal do Brasil.
Não é possível que algum acordo, ou convênio, mesmo que secreto, autorize a DEA a pagar diárias, passagens, hospedagens de agentes e delegados da PF, além de financiar as operações.
Como outros de seus colegas ouvidos por CartaCapital, o procurador da República, Luiz Francisco Fernandes de Souza (leia na página 26), diz:
- Não pode, não pode. Essas transferências não podem ser feitas assim, de jeito nenhum, sem contar que isso afronta, pisa na soberania do País. Se alguém fizer apenas parecido nos Estados Unidos, é preso na hora, quem pagar e quem receber.
Chega-se agora às provas da movimentação financeira entre DEA e PF. Movimentação, como já assinalado, acobertada pelo tal guarda-chuva.
As provas, que chegaram também à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), vieram à luz no rastro da animosidade entre os delegados Chelotti e Cavaleiro.
A disputa entre ambos já tema de CartaCapital nas edições 92, 97 e 98, tinha, ao fundo, a presença norte-americana na PF.
Historicamente, ao longo das duas últimas décadas, a DEA opera com a Entorpecentes, por onde passou Cavaleiro. Já Chelotti, como diretor-geral, tinha próximo a si o Centro de Dados Operacionais (CDO), ligado à CIA.
O ex-CDO, hoje Serviço de Operações de Inteligência Policial (Soip), teve seu prédio construído, tijolo por tijolo, a partir da segunda metade dos anos 80, com dinheiro da CIA, via Departamento de Estado.

As primeiras duas dezenas de automóveis da PF no então CDO, inicialmente sob o comando do delegado José Antonio da Costa Mariz (o chefe da CIA se chamava Blocker), foram doação da CIA.
Automóveis, claro, em nome de terceiros. Hoje o Soip é chefiado pelo delegado Lawrence. Os delegados Mariz, Edson Resende, Wilson Damásio, Edson Oliveira, Mario José, no CDO ou em outras divisões da PF, trabalharam com os norte-americanos.
Nos anos 90, o CDO chegou a manter 15 escritórios no País. Desativou-os, mantinha quatro em 1999 (Belém, Cuiabá, Porto Velho e Brasília) e agora amplia novamente sua rede.
O Soip é regido pelo sistema de "informação compartilhada". Quem compartilha suas informações é a CIA.
Agentes que fossem trabalhar, que trabalhem no CDO, tinham, têm de passar antes por Washington.
Lá, não na sede da CIA, em Langley, Virgínia, mas em hotéis da capital, submetiam-se a testes no detector de mentiras. Informe-se que o mesmo sistema segue em vigor.
Dentre os que passaram por tal vestibular, citem-se os agentes Tadeu, Sérgio, Trindade, Ricardo, Lima, Paulo, os delegados Mário, José Roberto... Quem chefiou o então CDO ou trabalhou em conjunto com a CIA, passou pelo teste.
Do CDO, no início do governo Fernando Henrique Cardoso, dois agentes foram os executores do grampo telefônico que levou à queda do chefe do cerimonial do Palácio do Planalto, Júlio César Gomes dos Santos.

Naqueles dias, depois de obter uma ordem judicial, para investigação de um caso de tráfico de drogas (modus operandi habitual da CIA/CDO), a PF interceptou e gravou conversas de Júlio César com o presidente da República.
Nas conversas, além de temas mais, digamos, amenos, o presidente Fernando Henrique Cardoso e o embaixador Júlio Cesar trataram do assunto Sivam.
Projeto de US$ 1,4 bilhão, o Sivam opunha, na concorrência, franceses e norte-americanos. Recorde-se que Bill Clinton, o presidente dos EUA, ligou para FHC e pediu apoio ao projeto.
Enquanto Clinton tratava do assunto, a CIA, via informações e grampos compartilhados com o CDO, sabia do que e com quem o presidente do Brasil conversava ao telefone.
Esta história dos bastidores do escândalo Sivam é um ligeiro rememorar de fatos já relatados por CartaCapital.
À disposição no endereço eletrônico www.cartacapital.com.br.
Há quem não acredite nos fatos. Há quem não queira acreditar, como há quem os conheça e os negue. O que não se pode negar são os documentos oficiais. Ainda mais os reservados.
A seguir, CartaCapital trata de outros dois desses documentos guardados em gavetas reservadas dos serviços de inteligência e na Presidência da República.
Um deles é de 1985. O Brasil negociava o acordo de cooperação com os Estados Unidos, e a DEA. O secretário-geral do Ministério da Justiça, José Paulo Cavalcanti Filho, era um negociador brasileiro.
Cavalcanti estranhou que, além dos identificáveis homens da DEA, um expressivo número de agentes outros e militares dos EUA solicitavam visto.
Aquele era um tempo de dificuldades de acesso aos EUA e, reciprocidade diplomática, de acesso de norte-americanos ao Brasil. Diante da extensa lista de norte-americanos, Cavalcanti produziu um relatório reservado, endereçado ao presidente da República.
José Sarney recebeu o relatório. Nele, a suspeita de que militares dos Estados Unidos, valendo-se do tal guarda-chuva, infiltravam-se para chegar às questões da fronteira norte do Brasil.
O documento segue "classificado". José Paulo Cavalcanti, ouvido a respeito do documento manuseado por CartaCapital em Brasília, disse o que se deve dizer nessas ocasiões:
- Esse é um relatório reservado, não posso tratar deste assunto em público. Isso pertence à Presidência da República.
CartaCapital publica (confira na página 27) trechos de outro contundente, e decisivo, documento "classificado".
Decisivo para quem, ainda que crédulo, se dispuser a perceber qual é o teor das relações carnais entre a polícia, o setor de Inteligência do Brasil e representantes dos EUA.
O ofício 133/99 saiu do gabinete da Senad, assinado pelo então titular, Wálter Fanganiello Maierovitch, em 6 de maio de 1999. Foi endereçado ao general Alberto Mendes Cardoso.

O documento é um relato da atuação irregular de agentes norte-americanos no Brasil, da sem-cerimônia desta atuação e mesmo do desrespeito ao País.
Está relatado logo no início:
- ...frustradas tentativas... ...de manter e melhorar a cooperação internacional no enfrentamento do fenômeno das drogas.
Segue a descrição:
- Com exceção dos norte-americanos, todos os adidos das demais embaixadas contactaram com a Senad, aceitando parcerias e prestigiando o novo sistema.
Aguardava-se, à época, que James Derham, o encarregado de negócios, segundo homem na hierarquia da embaixada dos EUA, aceitasse a Senad.
Escreveu Maierovitch no relatório:
- "Lembrado da necessidade de representantes das agências DEA e CIA reportarem-se à Senad, recebe-se resposta de que comunicações eram feitas à Polícia Federal..."
No relatório é descrita a resistência, também, dos chefes da DEA, Pat Healy, e da CIA, Craig Peters Osth, de aceitar a movimentação no Brasil sob o comando da Senad.
Eles estavam, como estão ainda, acostumados apenas à espaçosa hospedagem na Polícia Federal. Recorde-se. Craig Peters Osth deixou o Brasil após a entrevista e presença na matéria de capa de CartaCapital edição 97.
Na edição seguinte, James Derham chegaria à capa com o desabafo feito na embaixada da França, após a decisão pela saída de Osth:
- O dinheiro é nosso, as regras são nossas.
Derham, por conta de tanto, também teve de deixar o Brasil. No relatório ao general Cardoso, Maierovitch descreve um constrangedor embate dentro do próprio Palácio do Planalto:
- ...James Derham trocou a costumeira urbanidade por trato marcado por linguajar desabrido. Encontrando, por acaso, este Secretário Nacional na porta de ingresso do elevador do Palácio do Planalto, começou a externar inconformismo e, tomado pela exaltação da sua tese de que só devia satisfações à Polícia Federal diante do estabelecido no acordo, passou a bramir, tendo sido com urbanidade advertido de que estava a faltar com o devido respeito e que vitupérios não seriam aceitos. Foi, também, advertido de que a conversa, pelo seu estado de descontrole emocional, estava encerrada.
Esses são os fatos. Este último, dentro do Palácio do Planalto, dois andares abaixo da sala do presidente da República.
E há quem ainda considere trivial, natural, um governo estrangeiro financiar atividades, ações, gestos e atos da Polícia Federal do Brasil.
Naqueles dias ainda havia resistências. A da Senad é o maior exemplo. Já se discutia ali outro programa norte-americano, a Task Force, um conceito defendido pelo FBI e pela Procuradoria dos Estados Unidos.
O programa prega a atuação conjunta de polícias, procuradores, bancos, na prevenção e repressão ao tráfico de drogas e ao crime organizado.
Tudo perfeito. Não fossem, mais uma vez, os patrocínios, no caso via FBI, e a monitoração dos caminhos.
Na quinta-feira 11, por exemplo, reuniram-se em Tabatinga, fronteira com a Colômbia, representantes dos países andinos.

Encontro do Idec, organização à qual é ligado o conceito da Task Force. Em Tabatinga, presente a DEA. O delegado Bezerra, na entrevista a CartaCapital, conta:
- Nós somos independentes. Neste encontro do Idec tem países, como o Suriname, que chegam aqui no avião da DEA.
Passaram-se três anos desde quando discutia-se a Task Force, a força-tarefa. De lá para cá o FBI conseguiu autorização para instalar um escritório no Brasil.
Desde então, multiplicam-se as palestras patrocinadas pelo FBI Brasil afora.
Há um mês o encontro foi em Salvador. Desta segunda-feira15 à sexta-feira 19, acontece em Curitiba o Seminário Internacional de Prevenção e Repressão à Lavagem de Dinheiro e à Corrupção na Administração Pública.
Os organizadores anunciam a presença do governador Jaime Lerner, do ministro da Justiça, Miguel Reale, da corregedora-geral Anadyr Mendonça, e palestras inúmeras.
Getúlio Bezerra, da PF, vai falar. Como falarão, todos os dias, os senhores do FBI, Richard Boscovitch, Richard Cavalieros e Rodney A. Morgan.
Para se entender melhor a história e a correlação de forças. As 19 agências norte-americanas disputam, no Congresso dos EUA, verbas, espaços, e têm satisfações a dar.

Se forem menos eficazes, perdem verbas. O que significa menos empregos. Como já não há comunistas, e só agora o terrorismo retorna como inimigo de grandes proporções, as agências dedicaram-se, nos últimos anos, ao combate ao narcotráfico.
As ações se ampliam mundo afora. O Brasil é apenas mais uma base e laboratório. Juntos, DEA, CIA e FBI manejavam há três anos um orçamento superior aos US$ 40 bilhões (atenção, bilhões de dólares).
Imagine-se quem a Polícia Federal hospeda. Em troca de patrocínio às suas operações mais sensíveis e secretas. Em troca de um adjutoriozinho para passagens, diárias, hospedagens.
Ah, mas tem o acordo de cooperação!
Então, tá.
Em tempo: a Polícia Federal do Brasil, por falta de dinheiro, deve R$ 21 milhões na praça. De restos a pagar do ano 2001.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Mais uma da série, recordar é viver: A representação da CIA dentro da Polícia Federal

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Mas mantendo a linha para falar dos donos do País, que não são somente os nativos, outra reportagem de Bob Fernandes, derivada da entrevista com Carlos Costa, ex espião americano e ex "chefe" da polícia federal brasileira.

A CIA & COMPANHIA
Dois delegados da Polícia Federal, um já aposentado, contam em minúcias a história do CDO, instalação da Agência no Brasil

Por Bob Fernandes

Confira na edição impressa:
A HORA DO RESGATE
Delegado que, dentro da PF, enfrentou a CIA ainda em 1997 revela em detalhes a dimensão da ingerência dos EUA. E da submissão...

RÔMULO, O HISTORIADOR...
Corregedor produziu relatório que radiografa a promiscuidade entre a Agência e a PF desde 1988, e afirma que não há base legal (para o CDO-CIA).



Terça-feira 13, oito da noite. Carlos Costa, chefe do FBI no Brasil de 1999 a 2003, está no gabinete do senador Eduardo Suplicy (PT-SP). Conversa informalmente com os deputados Dr. Rosinha (PT-PR), Maninha (PT-DF) e Fernando Gabeira (RJ, sem partido). Já deveria ter sido iniciada, às seis e meia, a sessão secreta das Comissões de Inteligência e Relações Exteriores que ouviria Costa sobre a ingerência dos serviços secretos e policiais dos Estados Unidos no Brasil. Sessões na Câmara e no Senado se arrastam. Às dez da noite, a decisão é tomada. O depoimento de Costa se dará às nove e meia da manhã do dia 28 de abril.

Pouco antes, outra sessão secreta havia sido adiada. A do dia seguinte, quando deporiam, como convidados, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Félix, e o diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda. No Senado, a informação: os ministros optaram por adiar seus depoimentos porque preferiam saber antes o que falaria Carlos Costa.

Dez e meia da noite. O senador Suplicy, à porta de seu gabinete, relata:

– A embaixadora dos Estados Unidos, Donna Hrinak, me disse que seria melhor o senhor Carlos Alberto Costa dar o seu depoimento reservadamente, porque se o seu depoimento for público o governo norte-americano pode decidir processá-lo.

Quarta-feira, sete da noite. O delegado da Polícia Federal, já aposentado, José Roberto Benedito Pereira, 53 anos, conversa por uma hora com CartaCapital. Entrevista a seguir, das páginas 18 a 22. Ex-chefe de gabinete do então diretor da PF, Vicente Chelotti, ex-corregedor-geral da Polícia, José Roberto abre a alma.

Em detalhes, confirma a longínqua e estreita relação da Polícia Federal com os serviços secretos dos Estados Unidos. No varejo, atesta o que Carlos Costa afirmou no atacado quando de sua entrevista a CartaCapital (edição 283, que pode ser encontrada no www.cartacapital.com.br, na seção Grampos e Espionagem junto a outras sete edições que tratam do mesmo tema, a presença de CIA, DEA, FBI e assemelhados, e as atividades de espionagem dos EUA no Brasil).

O delegado José Roberto ascendeu junto com Chelotti. O projeto previa, entre outros pontos, “enquadrar os americanos”. José Roberto, assim como outro delegado, Luís Carlos Zubcov, tentou enfrentar a CIA. Ambos caíram. Chelotti, relata o delegado, “perfilou-se com a CIA”.

O delegado desce a minúcias. Recorda os debates sobre a CIA na PF, vai muito mais além, mas também confirma, com a autoridade de quem viveu os fatos, o que CartaCapital revela, desde 99, sobre a ação dos serviços secretos dos EUA no Brasil.

José Roberto conta: o Centro de Dados Operacionais (CDO), depois chamado SOIP e hoje COIE, funcionou desde sempre em regime de informação compartilhada com a CIA. Dali foi feito o grampo que flagrou, em 1995, o presidente Fernando Henrique em conversas com o chefe do cerimonial, Júlio César Gomes dos Santos.

Conversas particulares, mas também sobre o Sivam, então de enorme intere$$e para a CIA e os Estados Unidos. (Em tempo. O grampo revelado por CartaCapital há três edições é outro. Foi feito diretamente por serviços secretos dos EUA nos palácios Alvorada e Itamaraty.) O delegado José Roberto recorda minúcias dos tempos FHC, como rememora sua ida a Washington para se submeter ao teste do detector de mentiras lá então aplicado pela CIA em policiais brasileiros.

O delegado, em seu retorno, escreveu a memorável peça, então documento “confidencial”, intitulado “São Tomé, Ver para Crer”. O documento, que depois seria parte de sindicância interna, integra também o processo que o levaria a se tornar um pária dentro da própria Polícia Federal, encostado nos corredores, sem função, pois não havia quem, em pleno governo Fernando Henrique, decidisse “enfrentar os americanos e abrir mão das verbas deles”.

José Roberto terminou requisitado pela Presidência da República para a ABIN, e de lá assistiu à queda de Chelotti. Pouco adiantou. O enfrentamento, inclusive em uma reunião dentro do próprio CDO, selara seu destino. Ninguém, então, arrostava os norte-americanos dentro da PF e via a carreira sobreviver.

Rômulo Fish de Berrêdo Menezes, 36 anos, da Corregedoria e lotado no Senado no momento, é outro delegado da Polícia Federal. Rômulo é autor do relatório que percorre a história das sindicâncias e rastreia os passos da CIA – ou dos “americanos”, como diz ele quando se prende às formalidades legais – dentro da PF, na base do CDO, hoje COIE.

O relatório, brilhante e corajoso, assegura não existir sequer amparo legal para a existência do CDO-COIE nas bases em que funciona, com subvenção dos Estados Unidos.

Na entrevista a CartaCapital Berrêdo descreve o quase inacreditável. Como, até o ano 2000, nas dependências da Polícia Federal um doleiro fazia câmbio, para a PF, com dólares da CIA. Melhor, “dos americanos”. A revista IstoÉ, em sua edição passada, revelou a existência do doleiro e suas ligações.

Em seu relatório, minucioso, Berrêdo colhe o depoimento de 14 agentes e delegados e, ainda que sem descuidar das formalidades legais, na tomada de depoimentos, escancara, nas linhas e entrelinhas, as longevas pegadas da CIA dentro da casa da polícia do Brasil.

Quinta-feira 15. Final da tarde, avenida L2 Sul, Brasília, Procuradoria da República. O doleiro Georges Fouad Kammoun acaba de depor ao procurador Luiz Francisco Fernandes de Souza.

O doleiro Fouad relata que sua relação com a PF teve início em 1988, tempos, aliás, em que se instalava a base CDO-CIA. No primeiro câmbio, US$ 170 mil. Ao longo de 12 anos, trabalhou cerca de 140 meses para a PF. Pelas contas do próprio doleiro – imagine-se tais contas – trocou-se algo como US$ 746 mil.

Fouad disse ao procurador imaginar que a própria embaixada dos Estados Unidos o indicou para o honorável posto de conversor de dólares dos americanos para a polícia do Brasil. Afirmou ainda, e isso Berrêdo descreve em sua entrevista a CartaCapital, que fazia palestras para os funcionários do CDO.

Em seguida à entrevista de Carlos Costa, dada a perplexidade que declarações devastadoras como aquelas provocam, seria natural que, como se deu, cidadãos ansiassem por mais evidências, provas.

Nesse sentido, parecem ser implacáveis, definitivas, as entrevistas dos delegados José Roberto e Berrêdo nas páginas que se seguem. Um, o primeiro, viveu a história da CIA na Polícia Federal na própria pele. E pagou caro por isso.
O outro, Berrêdo, minuciosa e exaustivamente, recolheu as histórias, a história, as provas e a inexistência de amparo legal para tal parceria. Que já seria grave ainda que existissem acordos e convênios a resguardá-la. Um país, um Estado, não faz acordos, muito menos de submissão, com outro país. Muito menos com os Estados Unidos. E ainda menos com a CIA.

Quinta-feira 15, início da noite. O procurador Luiz Francisco envia ao diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda, trechos do relatório final do delegado Rômulo Berrêdo, do doleiro Georges Fouad, encerrado pouco antes, e solicita o envio de “contas, recibos e despesas, realizadas desde 1988, com recursos oriundos da embaixada dos EUA”, em especial “os recebidos pelo CDO, atual COIE”.

Requer ainda o procurador “tombamento de bens obtidos com esses recursos” e, por fim, “recomenda” que a PF cesse “imediatamente de operar com o esquema de ‘caixa-preta’, ou seja, com recursos obtidos da embaixada dos EUA, ou de agências de investigação ou ligadas ao governo dos EUA...”. Por fim, o procurador solicita “abertura imediata de inquérito policial para apurar todos os fatos”.

A bem dos fatos, registre-se que quanto ao inquérito policial a própria polícia se antecipou. Com base na entrevista de Carlos Costa e nas edições 283 e 284, o diretor da PF, Paulo Lacerda, já ordenara a instauração de um inquérito policial.

O pedido de inquérito, datado de 7 de abril, é amplo. Abarca desde indícios de prevaricação à possível violação de soberania, e eventuais crimes na utilização de verbas. O pedido do procurador na noite da quinta e qualquer outro que seja feito nesse caso serão agregados. Recorde-se que um inquérito como esse só poderá ser arquivado por decisão da Justiça.

Comentário Politicamente (In)Correto

Passados 6 anos, nada de concreto foi feito e os traidores continuam trabalhando nos mesmos lugares, como diz a expressão, só mudaram algumas moscas.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Da série, recordar é viver, como o FBI e a CIA mandam na Polícia Federal Brasileira

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Revista CARTA-CAPITAL, Edição 283, de 24/03/2004

Transcrição completa

A HORA DA AUTÓPSIA

Carlos Costa, que chefiou o FBI no Brasil por quatro anos, fala sobre ordens dos Estados Unidos para "monitorar" o País e relata: como os EUA "compraram a Polícia Federal", o terrorismo, o atentado tramado na Tríplice Fronteira, a bomba atômica que planejavam detonar em Washington...
Por BOB FERNANDES



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ALMADA, DO OUTRO LADO DO RIO TEJO E DE LISBOA, DUAS HORAS da madrugada de 31 de março de 1968. No segundo andar de sua mansão, Antônio da Fonseca Costa, chefe da temível Polícia Internacional da Defesa do Estado, a PIDE, do ditador Antônio de Oliveira Salazar, sacode o filho:

- Acorda, Carlos, acorda, rápido!

Órfão da espanhola Faustina Luengo Mendez, morta por uma leucemia aos 47 anos quando o filho mal chegara aos 7, Carlos Alberto Costa se levanta às pressas, assustado. Carlos não entende por que o pai recolhe alguns poucos pertences familiares e os amontoa com roupas em duas malas;

junto a uma dúzia de garrafas de vinho do Porto de mais de 100 anos. Com um militar amigo ao lado, o chefe da PIDE e o filho partem para o aeroporto de Lisboa. De lá, num avião militar, embarcam para Madri.

Trinta e seis anos depois, na sacada do Iate Clube, em frente à Baía de Todos os Santos, dia nublado no verão de Salvador, Carlos Costa recorda-se da última madrugada da sua infância em Portugal, e dos condutores da fuga:

Acho que foi a CIA quem nos ajudou até Madri, dias depois fomos para os Estados Unidos...

O chefe da PIDE havia se tornado um dissidennte. Antônio Costa, que recebia o ditador Salazar para almoços e jantares em Almada ou em sua casa de campo em Palmela, vizinha a Setúbal, antevia que os tempos mudariam; não seria possível prosseguir por muito tempo com seqüestros e prisões a cada vez que um vizinho acusasse outro de ser comunista ou antigoverno.

NO BRASIL E NO MUNDO, O FBI & Cia

Quatro anos depois, em Cumberland, Rhode Island, Estados Unidos, Antônio da Fonseca Costa morria de câncer, e exaustão; turnos de 12 horas, noites e madrugadas adentro em fábricas de vergalhões, sempre fumando. Morreu paupérrimo. O filho, Carlos, trabalhou dos 18 aos 20 anos até pagar, ao mesmo tempo em que custeava os estudos, US$ 5 mil das despesas do funeral.

Por seis meses, no café da manhã, almoço e jantar, Carlos Costa faria suas refeições à base de um único prato:

Com Flakes e leite.

Carlos Costa tem hoje os mesmos 49 anos que tinha o pai quando deixou a PIDE e Portugal. Carlos acaba de se aposentar. De 1999 ao fim de 2003, foi o poderoso chefe do FBI no Brasil. Como o pai, ao recusar-se a obedecer a toda e qualquer ordem ele construiu uma dissidência, agora revelada.


(Carlos Costa) NO PALÁCIO DO PLANALTO.
Em 2002, com o presidente interino, Marco Aurélio de Mello, do STF

Em 2001, num jantar no restaurante Antiquarius, em São Paulo, marcado a seu convite e com uma testemunha, Carlos assim se apresentou:

— Sou o chefe do FBI aqui. Sei o que você tem escrito sobre os nossos serviços secretos no Brasil, mas saiba que estamos aqui oficialmente e não vamos agir à margem da lei...

As leis no Brasil, como veremos na devastadora entrevista que se segue, tornam-se inacreditavelmente elásticas, complacentes, a partir da ação, ou omissão, por vezes criminosa, do próprio Estado.

Em 16 de dezembro último, procurado por Carta Capital, Carlos concedeu a primeira de uma série de entrevistas que totalizam oito horas, a se contarem apenas as gravações, feitas em São Paulo, Salvador e Brasília.

Em trechos dessa longa conversa, além do surpreendente e raro fato em si mesmo de um agente de um serviço secreto dos EUA abrir a boca - ainda mais um chefe do FBI com acesso a documentos classificados no mais alto nível -, Carlos Costa atira para dentro e para fora do Brasil.

Ele, que por três anos no governo Fernando Henrique e dez meses no governo Lula comandou o FBI, e na embaixada dos Estados Unidos acompanhou ações dos colegas da Drug Enforcement Administration (DEA), Central Intelligence Agency (CIA), US Customs, NAS e outros "Serviços", como se autodenominam os agentes secretos, começa por dizer, sem meias palavras:


— A vossa Polícia Federal é nossa, trabalha para nós há anos. [...] Foi comprada por alguns milhões de dólares. [...] Os Estados Unidos compraram a Polícia Federal... quem paga dá as ordens...

Carlos, cidadão norte-americano nascido em Portugal, fluente em inglês e espanhol, fala português com sotaque lusitano. Fonética, sintaxe e a lógica exata dos portugueses.


(Carlos Costa) NA EMBAIXADA DOS EUA.
Em 99,
com o então chefe da Polícia Federal, Wantuir Jacini


Tome-se essa informação em conta na leitura das respostas às perguntas de Carta Capital sobre a instrução, ordem de Washington, para que serviços secretos grampeassem o Palácio da Alvorada e o Itamaraty.

Pela primeira e única vez em muitas horas e dias de conversa, Carlos Costa, sempre bem-humorado, relaxado, fica tenso. Pára, pensa e, visivelmente surpreso, responde com uma pergunta:

— Me diga o que você sabe, como soube disso?

A informação é segura. Os Palácios da Alvorada e Itamaraty foram grampeados a partir de tais ordens. A data, imprecisa, poderia ser confirmada pelo entrevistado. A tentativa é inútil. Irritado, Carlos Costa repete:

— Como você soube? O que você sabe sobre isso?

Da ordem, e do grampeamento feito nos Palácios da Alvorada e Itamaraty...

Nesse instante, Carlos, com a exatidão lusa e a objetividade norte-americana, levanta-se da cadeira e dá por encerrada a conversa naquela noite:

— [...] Não confirmo nem desminto... Sem comentários [•••] Não toco nesse assunto... Ponto final!

Uma última tentativa:

Foi você quem executou essa ordem? Quando?

Como você ainda verá na nossa conversa daqui por diante, me recusei a cumprir ordens bem menos graves do que essa. Boa noite!

Algumas das ordens ele se recusou a cumprir. Sobre uma delas, também grave, falou claramente, sem rodeios:


BLACK-TIE
Na limusine, em Washington, a caminho da posse de Bush Jr. (Carlos Costa) com o então prefeito de Miaime, Joe Carollo e o governador Garotinho.



— Houve uma determinação de Washington para que eu "monitorasse" todas as mesquitas, xeques, aiatolás e líderes da comunidade muçulmana no Brasil e fizesse "listas". Recusei-me, há ocasiões em que uma pessoa deve se recusar a cumprir ordens inconstitucionais.

Por outro lado, assegura ele que os atentados contra alvos israelenses em Buenos Aires, na primeira metade dos anos 90, foram tramados "dentro do território brasileiro".

Carlos Costa é um agente secreto com amplíssima e eclética formação. Na Flórida, na Southeast University, fez um MBA em Gerenciamento de Empresas, com Especialização em Gestão de Negócios Internacionais. Em Washington, DC, no Foreign Service Institute (FSI), especializou-se em assuntos econômicos e sociais de países latino-americanos. Formado em Ciências Políticas e Relações Exteriores pela University of Rho-de Island, Carlos Costa entrou no FBI em 1982, numa disputa com 56 mil candidatos por vaga.

No Federal Bureau of Investigation (FBI), como agente especial, serviu nos escritórios de Boston, Pittsburgh e Miami. Na sede do FBI, em Washington, foi também chefe de seção de Contra-Inteligência e Espionagem Industrial Internacional.


Na Posse, Carlos Costa na companhia de Felix Rodriguez, o agente da CIA cubano-americano que localizou Che Guevara nas selvas da Bolívia e avisou-o de sua execução próxima


No Brasil, ao rastrear ações dos serviços secretos dos Estados Unidos ao longo dos últimos anos, Carta Capítal deparou-se com a movimentação do então chefe do FBI em reluzentes palácios e salões.

Como se vê em foto na página ao lado, Carlos Costa esteve na sala do presidente da República - ao menos quando lá se encontrava, interinamente, o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio de Mello.

No Distrito Federal, Rio de Janeiro, Bahia, Santa Catarina, São Paulo, Amazonas, Paraná... País afora o chefe do FBI avistava-se com governadores, ministros, secretários de Estado, comandantes de polícias militares, secretários de Segurança Pública. Treinou centenas de homens, mandou dezenas deles aos Estados Unidos, à sede do FBI, levou Anthony Garotinho - único político brasileiro - à posse de Bush Júnior.

O ex-chefe do FBI pagava as contas, da mesma forma que, revela ele em estarrecedoras páginas adiante, a US Customs, DEA, NAS, CIA, outros "Serviços" e o próprio FBI pagam contas das polícias do Brasil.

Direto como pode ser um norte-americano, Carlos Costa relata: a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) é uma "pedinte", e não apenas dos Estados Unidos.

O Estado brasileiro? Assistiu, assiste, como se tudo corresse na maior normalidade. É preciso cortar gastos, con-tingenciar. Então, que mal há se os Estados Unidos, em troca de acesso total e controle, "doam" alguns milhões de dólares para as polícias e instituições verde-amarelas a cada ano?


MEMÓRIA E PODER Carlos Costa em 1982, ao entrar no FBI


— E depois vocês querem ser levados a sério? -, pergunta e responde ao mesmo tempo o ex-chefe do FBI.

Quando atira para fora, Carlos Costa mira na administração Bush. Com a autoridade de quem chegava a ler e manusear, em média, por semana, mais de 300 documentos, relatórios e informes Secret e Top Secret, produzidos mundo e Brasil afora, inclusive pela CIA, aquele que foi um dos únicos 45 chefes do FBI além das fronteiras dos EUA assegura:

— Jamais li documento secreto que indicasse a existência de armas de destruição em massa no Iraque. O que li assegurava o contrário. Discuti com colegas do FBI e da CIA de qualquer parte do mundo e concordamos que Bush e Blair buscavam uma justificativa para a guerra.

Ele fala ainda de outros tempos. De como, nos anos Reagan, os EUA entregaram o antraz para Saddam Hussein. Conta como, na Guerra das Malvinas, os Estados Unidos forneciam aos ingleses informações dos satélites sobre as tropas argentinas enquanto repassavam aos argentinos a localização de navios ingleses que seriam destruídos.

De passagem, com a lógica exata de sua língua-mãe, e pitadas de humor britânico, aborda o recente episódio da espionagem a Kofi Annan, na ONU, e ações também de espionagem contra o governo de Tony Blair.

Provocado, o ex-chefe do FBI expõe, em detalhes, a interrupção da ação de terroristas que, há dois anos, trabalhavam para explodir uma bomba atômica em Washington:

— [...] iam explodir uma bomba suja. [...] não se fez alarde, isso, se revelado em toda a sua extensão, provocaria pânico na população americana...



Na embaixada, com o general Wilhelm, comandante militar do Hemisfério Sul


Carlos Costa sabe os riscos que corre ao falar. Enquanto prepara capítulos de um livro sobre o FBI e sua vida como agente secreto, toma precauções contra uma "gripe súbita". E mortal.

Em alguns lugares, com algumas pessoas, estão gravações de, segundo ele, "muito, muito mais do que falamos, ou deixamos de falar aqui, fatos que levariam a uma enorme repercussão internacional". Com o que já se descortina nas páginas seguintes, é de se imaginar o que ainda poderia estar por vir.

Às vésperas do 31 de março brasileiro, marco dos 40 anos do golpe militar e instalação da ditadura que em 21 anos moldou um país ainda hoje em busca de cacos, e do qual o que se revela nesta entrevista é uma irretocável alegoria sob diversos pontos de vista, Carlos Alberto Costa prepara-se para o seu 31 de março.

Como o pai, num 31 de março há 36 anos, ele agora se aparta da comunidade dos agentes secretos. Deixa os bastidores o treinadíssimo espião que administrava milhões de dólares no escritório do FBI, um hábil negociador, e entra em cena o palestrante, consultor em relações e comércio internacional, em Inteligência e Segurança.

Casado com uma brasileira, pai de um filho brasileiro, o homem que chefiou o FBI no Brasil por quatro anos, depois de 22 anos como agente secreto, abre a alma para poder conseguir mudar de vida. Se assim o "Animal" que ele tão bem conhece - os "Serviços" - o permitir. Será uma longa, árdua e perigosíssima batalha. Mas há algo que Carlos Costa nunca mais fez e, jura, jamais voltará a fazer na vida. Ele nunca mais comerá Com Flakes.

Carta Capital: Você chefiou o FBI no Brasil? Por quanto tempo? Carlos Alberto Costa: Chefiei o FBI no Brasil. Por quatro anos, até quase o final do ano.

Carta Capital: Como eram, são, as relações dos serviços secretos dos Estados Unidos com as polícias do Brasil?

Carlos Alberto Costa: Você se refere à polícia de vocês ou à comprada por nós?

Carta Capital: Comprada?

Carlos Alberto Costa: Sim, comprada. Nossas agências doam milhões de dólares por ano para a Polícia Federal, há anos, para operações vitais. No ano passado, a DEA doou uns US$ 5 milhões, a NAS (divisão de narcóticos do Departamento de Estado), também narcóticos, uns US$ 3 milhões, fora todos os outros. Os Estados Unidos compraram a Polícia Federal. Há um antigo ditado, e ele é real: quem paga dá as ordens, mesmo que indiretamente. A verdade é esta: a vossa Polícia Federal é nossa, trabalha para nós. Os vossos governos parecem não dar importância à Polícia. Não sei se é herança da ditadura, quando a Polícia era malvista, mas isso é incompreensível. A Polícia, que deve ser uma entidade independente da política, independente de influências internas e externas, está, na prática, em mãos de estrangeiros.

Carta Capital: Isso se refere a todas as agências americanas que trabalham aqui?

Carlos Alberto Costa: A CIA é outra história... A CIA tem a função legal de um Serviço de Inteligência que atua no estrangeiro.

Carta Capital: Sim, mas também "doa", e atua com maior ou menor autonomia, se o Brasil permite.

Carlos Alberto Costa: Bom, eu concordo: atua com maior ou menor autonomia, mas o papel da CIA, do ponto de vista dos Estados Unidos, é correto e legal: é um Serviço de Inteligência no exterior.



"DOCUMENTO SECRETO ALGUM FALAVA EM ARMAS DE DESTRUIÇÃO MASSIVA. BUSH E BLAIR QUERIAM A GUERRA..."

Carta Capital: Quanto a CIA "doa"?

Carlos Alberto Costa: Não sei. Os outros serviços secretos são mais abertos, a CIA é fechada... O orçamento da CIA entra no orçamento da Defesa... Mas, óbvio, como qualquer serviço secreto, utiliza o dinheiro para comprar, chantagear, pagar propinas...

Carta Capital: Vocês se mexem, se locomovem com facilidade no Brasil?

Carlos Alberto Costa: Aqui? Com toda a facilidade. Temos no Brasil o FBI, a DEA, a CIA e outros Serviços. Somos identificados como diplomatas: attachés, adidos, assistentes. Eu, por exemplo, fui adido jurídico...

Carta Capital: Mas, em bom português, vocês são agentes secretos, espiões...

Carlos Alberto Costa: Se quiser usar esses termos, é isso mesmo. A questão é que não há razão nenhuma para se ter aqui agentes do FBI, da DEA, da NAS, da US Customs... Admiro muito como é que países com sistemas de Inteligência como a China e a Rússia autorizaram a operação do FBI nos seus territórios com cobertura diplomática. Há um escritório do FBI em Hong Kong e outro em Pequim. Qual é a necessidade de ter agentes de uma polícia, o FBI, cuja jurisdição é apenas nos Estados Unidos? Isso é uma violação à lei, segundo as próprias leis americanas.

Carta Capital: Chávez autoriza o FBI na Venezuela?

Carlos Alberto Costa: Chávez herdou um escritório, mas só que lá esses agentes não fazem nada; são monitorados e não podem se mexer.

Carta Capital: Antes de entrarmos no específico, na rotina, no dia-a-dia da embaixada, quais são as funções dos serviços secretos?

Carlos Alberto Costa: Digo logo: uma das importantes funções que nós temos na embaixada é manipular a imprensa brasileira...

Carta Capital: O quê? Explica isso aí...

Carlos Alberto Costa: Manipular, conduzir, controlar a imprensa brasileira no que nos interessa.

Carta Capital: Ah, é?! Manipular...?

Carlos Alberto Costa: A isso chamamos "influenciar".

Carta Capital: Por favor, detalhe esse "influenciar", dê exemplos.

Carlos Alberto Costa: Sem nomes. Começa, digamos assim, com o estabelecimento de boas relações. Detectamos jornalistas que sejam pró-América - evidente que isso em órgãos influentes junto à opinião pública - e os convidamos a ir aos Estados Unidos, com todas as despesas pagas. Essa não era a minha área, mas começa assim. Influenciar é mudar o pensamento contrário aos nossos interesses. A primeira atividade em qualquer reunião da embaixada é uma análise sobre o que diz a mídia a nosso respeito; Carta Capital, por exemplo, nunca foi vista com bons olhos lá na embaixada, para dizer o mínimo.

Carta Capital: Imagino o máximo...

Carlos Alberto Costa: Pois pode imaginar...

Carta Capital: Que argumentos valem para "influenciar"?

Carlos Alberto Costa: ... muita criatividade. "Influenciar" a imprensa, a mídia, é uma coisa muito natural de fazer...

Carta Capital: Em português claro: "Influenciar" significa, inclusive, se necessário, comprar?

Carlos Alberto Costa: É virar a opinião pública a nosso favor.

Carta Capital: Tá, mas...

Carlos Alberto Costa: Seja lá o que for necessário. Se é comprar, e comprar, ha várias maneiras. Mas deixa isso pra lá... Voltemos às funções da CIA.

Carta Capital: Voltaremos à mídia adiante. A CIA:

depende do Brasil cercear ou não a atuação da CIA, se deixar "comprar"...

Carlos Alberto Costa: É preferível o termo "influenciar". E também depende o quanto e a quem a CIA, a DEA e os demais vão "influenciar" no Brasil.

Carta Capital: É melhor usar o termo "influenciar", assim como em relação à imprensa...

Carlos Alberto Costa: Agora, o FBI, a DEA, a NAS, a US Customs (alfândega), o RSO, que são os seguranças internos da embaixada, e tantos outros serviços, o que estão a fazer aqui? Como é que os brasileiros, o seu governo, não se perguntam sobre isso? Como é que a imprensa não investiga, não diz nada a respeito? Todos têm agentes que entram e saem constantemente, atuam livremente por todo o País, é uma coisa incrível...

Carta Capital: O serviço secreto do seu presidente também investiga no Brasil?

Carlos Alberto Costa: Sim, e sem autorização da embaixada, autonomamente, nem nos avisam. Uma das suas funções é investigar a falsificação e exportação de dólares, modalidade na qual o Brasil, na Tríplice Fronteira, é talvez o maior produtor. Já os outros serviços secretos...

Carta Capital: Todos agem como policiais e sem controle algum dentro do Brasil?

Carlos Alberto Costa: Sim. Se o Brasil assim permite, então muito bem.


"COMO VOCÊ SOUBE?... NÃO TOCO NESSE ASSUNTO... (GRAMPO NO PALÁCIO DA ALVORADA E NO ITAMARATY)"


Carta Capital: Em nosso primeiro encontro há três anos, lhe perguntei como é que aluavam CIA, DEA, etc., como eram suas ações via Policia Federal. À época você, diplomaticamente, esquivou-se...

Carlos Alberto Costa: Então eu não podia falar, muito menos sobre a extensão e a profundidade da nossa presença aqui. Quando cheguei, em 1999, me surpreendi com a precisão das suas informações sobre nós, sobre os Serviços, e foi inclusive por isso que depois quis conhecê-lo e marquei aquele jantar em São Paulo...

Carta Capital: Você pensou em tentar nos "influenciar"?

Carlos Alberto Costa: Bem... (risos), digamos que eu estava traçando o seu perfil para ver se havia essa possibilidade. Não havia, mas recordo-me que fiquei a pensar que provavelmente muitas das fontes que utilizamos estavam a jogar nos dois lados. Eu estava certo?

Carta Capital: ...voltemos às polícias do Brasil...

Carlos Alberto Costa: Olha, se a ABIN mandar seus agentes trabalharem nos Estados Unidos, isso é muito natural, é função de um Serviço de Inteligência do presidente. Cabe a cada país anfitrião permitir, controlar essa presença ou não. Mas a ABIN é um Serviço de Inteligência sem missão. Não atua no estrangeiro como deve atuar um órgão vinculado à Presidência da República. Vivia, vive a investigar o MST e outros cidadãos brasileiros mais ou menos ilustres. Isso é uma violação de direitos civis em qualquer país democrático. Se a ABIN tivesse que investigar aqui dentro do Brasil, deveria investigar estrangeiros que aqui atuam, como os agentes de outros países.

Carta Capital: E se a Polícia Federal fizer ações de polícia dentro dos Estados Unidos?

Carlos Alberto Costa: Sem monitoramento, nunca aconteceu. Eu autorizava muitos suportes, dava muito suporte à Polícia Federal para fazer investigações dentro dos Estados Unidos, mas nenhum policial brasileiro, em missão oficial, claro, entraria nos Estados Unidos sem a minha autorização e sem ter seus passos controlados pelo FBI. Por quê? Porque assim o protocolo é.

Carta Capital: Uma questão muito delicada. Tenho a informação de que vocês - quando eu digo vocês, me refiro aos serviços secretos sediados na embaixada americana - receberam ordens, instruções para grampear a Presidência da República do Brasil e o Itamaraty...

Carlos Alberto Costa: Bem... essa pergunta me surpreende!

Carta Capital: Surpreende? Mas quem executou a missão?

Carlos Alberto Costa: ...reafirmo: estou surpreso com sua pergunta. O que você sabe? O que você soube disso?

Carta Capital: Da ordem e do grampeamento dos Palácios da Alvorada e Itamaraty...

Carlos Alberto Costa: Não toco nesse assunto. Ponto final!

Carta Capital: Então você não confirma nem desmente?

Carlos Alberto Costa: Não confirmo nem desminto. Ponto final!

Carta Capital: Foi você que executou essa ordem?

Carlos Alberto Costa: ...Como você verá na nossa conversa daqui por diante, me recusei a cumprir ordens bem menos graves do que essa.

Carta Capital: O Estado brasileiro não controla os agentes estrangeiros?

Carlos Alberto Costa: Não controla. Porque quem paga é quem dá as ordens. Os Estados Unidos pagam, eles dão as ordens nos setores que lhe são vitais. Os seus governos não querem uma polícia independente, autônoma, bem paga e bem treinada, porque temem que o feitiço se volte contra o feiticeiro. É óbvio que qualquer polícia federal em qualquer país tem que buscar ser a política. Num cenário como o vosso, se instala um nível de corrupção ao qual temos de dar completa atenção. Mas mesmo assim tenho um grande respeito pela instituição da Polícia Federal. Tem bons delegados e agentes, o problema é de falta de autonomia. E que quero fazer uma ressalva...

Carta Capital: Faça sua ressalva.

Carlos Alberto Costa: Fiquei quatro anos na chefia do FBI aqui no Brasil. Os primeiros três no governo passado, do Fernando Henrique, e só dez meses no governo atual. Até me admirei com o governo atual, que no cenário internacional tem tomado claras atitudes pró-Brasil e pró-independência diante dos Estados Unidos, mas, pelo que sei, não creio que o governo tenha noção do quanto a sua Polícia Federal está infiltrada por nós há anos, o quanto depende de nós. Por

que não tem autonomia na prática, não tem recursos.

Carta Capital: Operações como essas, cotidianas no Brasil, se acontecem nos EUA, o que seria dos policiais norte-americanos envolvidos?

Carlos Alberto Costa: Nunca aconteceria. Se acontecesse, iriam todos para a prisão, de cima a baixo.

Carta Capital: Cadeia para o secretário de Justiça?

Carlos Alberto Costa: Para todos, inclusive para o diretor do FBI. Por quê? Porque isso é uma violação à soberania. Agora, quero lembrar também que nós prestamos suporte e assistência ao Brasil constantemente, por exemplo, na corrente história de investigação do Banestado. Na investigação do juiz Lalau, rastreamos as contas e passamos isso tudo para o Brasil. Uma das coisas de que me honram foi conseguir o Tratado de Cooperação Mútua Legal, que facilita às polícias federais de ambos os países e os respectivos órgãos judiciais a se comunicar diretamente. Se estou nos Estados Unidos e necessito de uma ficha no Brasil para uma investigação, posso requerer diretamente à Polícia Federal ou ao Judiciário. Então não há razão alguma para os Estados Unidos manterem aqui policiais e agentes, o que apenas caracteriza uma agressão à soberania do Brasil.

Carta Capital: Então vocês estão aqui para quê?

Carlos Alberto Costa: É para ser claro? Para buscar informações e "influenciar" o anfitrião.

Carta Capital: Influenciar com aspas, inclusive. Vocês fazem qualquer coisa, quando querem?

Carlos Alberto Costa: Você entra em contato com o cidadão, compra qualquer cidadão, passa informações impunemente...

CG: Pode comprar um cidadão tranquilamente?

Carlos Alberto Costa: Lembra o caso de um fugitivo americano, Shalom Weiss, refugiado na comunidade hassídica em São Paulo? Ele havia recebido a maior pena da Justiça americana, 845 anos de prisão por um rombo financeiro na Heritage Insurance Company; pagamos US$ 95 mil dólares, em cheque, a um informante brasileiro.

Carta Capital: Como foi essa operação?

Carlos Alberto Costa: Eu, do FBI, montei uma equipe com delegados da sua Polícia Federal, de Brasília, todos da minha confiança. Eles trabalharam para o FBI por uns três ou quatro meses, tudo pago pelo FBI. No governo Fernando Henrique. Eu não tinha confiança em certos policiais de São Paulo, e também do Rio, então requeri que essa equipe fosse transferida para São Paulo para trabalhar no caso, tudo pago.

Carta Capital: Tudo o quê?

Carlos Alberto Costa: Transporte, alojamento, carros, diárias, tudo. Os policiais federais do Brasil sob nossa direção fizeram um excelente trabalho, inclusive grampearam a namorada brasileira do fugitivo. E aí essa namorada foi acompanhada por uma delegada da Polícia Federal num vôo para Viena, Áustria, onde se reuniu com Weiss. Lá, os agentes do FBI e a polícia local o prenderam. Esse homem era muito inteligente, tão genial que durante o julgamento, no tribunal, apenas com um laptop conseguiu fraudar mais US$ 15 milhões. Nós rastreamos tudo.

Carta Capital: Por que fichar brasileiros que visitam os Estados Unidos?

Carlos Alberto Costa: Nestes tempos, os Estados Unidos cada vez mais se isolam da comunidade das nações. O mundo, desde outubro do ano passado, investe mais capitais fora dos Estados Unidos do que costumava investir. E é com investimentos estrangeiros que os Estados Unidos, o maior devedor do mundo, paga a sua dívida. Se a política externa dos Estados Unidos continuar nesse rumo, a credibilidade que existe no dólar se dissolverá. A dívida externa dos EUA só não preocupa o mundo porque é ancorada na fé e credibilidade total que investidores têm no governo, ou seja, no seu bom nome e na estabilidade política e econômica. Essa fé significa confiança numa crença que não está baseada em prova ou fato. E, hoje, cada vez menos se põe muita fé ou confiança no governo do meu país.

Carta Capital: Por quê?


HÁ ANOS OS EUA COMPRAM A VOSSA Polícia Federal...


Carlos Alberto Costa: A administração Bush, com a desculpa de buscar armas de destruição em massa, atropelou a ONU, desmoralizou-a, ao menos naquele momento, e agiu unilateralmente...

Carta Capital: O senhor tinha acesso a documentos reservados sobre o Iraque? Existiam informes secretos que confirmassem a existência de arsenais de destruição em massa?

Carlos Alberto Costa: Eu era, até deixar o FBI, em outubro, um dos únicos 45 chefes do FBI a trabalhar no mundo, fora da fronteira dos Estados Unidos. Na minha posição tinha acesso, no mais elevado nível, Secret, Top Secret, a todo e qualquer documento secreto produzido, o que inclui os da CIA. Afirmo que jamais li um documento secreto que indicasse a existência de armas de destruição em massa no Iraque. Ao contrário, o que li em todos os meus quatro anos no Brasil, e em Washington, foram informes que asseguravam o contrário. Muitas vezes discuti com meus colegas do FBI e da CIA, de qualquer parte do mundo, e concordamos que a administração Bush, e Blair, apenas buscava uma justificativa para invadir o Iraque. Fabricava para a imprensa o contrário do que todos nós afirmávamos, e isso desmoraliza a nossa comunidade de inteligência. Agora é claro que também no topo dos Serviços de Inteligência há sempre quem esteja mais interessado nas suas carreiras do que nos fatos, e são estes os que rearrumam os fatos como quer a administração Bush.

Carta Capital: Dê um exemplo pessoal?

Carlos Alberto Costa: Muitas vezes tive altas discórdias com os meus informes de Inteligência porque Washington queria que eu adaptasse fatos às suas necessidades paranóicas... O problema é que o senhor Bush não tem a menor compreensão do que seja o mundo, aliás, nem mesmo o seu próprio país. E essa arrogância está a isolar os Estados Unidos...

Carta Capital: ...do resto do mundo.

Carlos Alberto Costa: E o mundo está a constatar que a tal fé e credibilidade no governo dos Estados Unidos é simplesmente a crença num governo vacilante, arrogante e paranóico. Sem contar que, noutros tempos, fomos nós, os Estados Unidos, todos nós dos Serviços, que em algum momento ou circunstância armamos o Noriega no Panamá, demos suporte aos Contras na Nicarágua, estivemos no Chile de Allende, em toda a América Latina, Central, Ásia...

Carta Capital: Sempre como política de governo...

Carlos Alberto Costa: Uma política de governo. Assim como fomos nós, todos os nossos Serviços, que treinamos e demos suporte ao Bin Laden. Ora, isso é algo que já sabemos alguma coisa, você pode me dizer. O.k., mas aqui quem está a falar é alguém com a autoridade de quem trabalhou 22 anos no FBI e chefiou uma secção de contra-inteligência e espionagem industrial internacional em Washington.

Carta Capital: Vocês treinaram e armaram Bin Laden quando ele...

Carlos Alberto Costa: ...enquanto ele combatia os soviéticos no Afeganistão. Nós que demos suporte ao Saddam Hussein para ele conter os aiatolás do Irã, nós é que lhe demos armas químicas...

Carta Capital: Quando e como vocês deram as armas químicas?

Carlos Alberto Costa: Fornecemos, por exemplo, o antraz, assim como outras armas químicas que agora nós, hipocritamente, anunciamos ir lá procurar.

Carta Capital: Foram mesmo vocês, diretamente, que deram maneiras para produzir o antraz?

Carlos Alberto Costa: Demos as técnicas e demos toda a assistência.

Carta Capital: Quem fez isso? Em que época?

Carlos Alberto Costa: Donald Rumsfeld, atual secretário de Defesa dos Estados Unidos, à época era um representante emissário especial do presidente Ronald Reagan; início dos anos 80, guerra entre o Iraque e o Irã, com mais de um milhão de mortos em ambos os lados. Nós não tínhamos relações diplomáticas com o Iraque, considerado um país que dava suporte ao terrorismo internacional e que estava na lista de excluídos do Departamento de Estado. No entanto, em 1982, os EUA removeram o Iraque dessa lista e, em 20 de dezembro de 1983, o mesmo Rumsfeld de hoje encontrou-se com Saddam Hussein em Bagdá. Confraternizou-se com Saddam e deu a ele todo o suporte político e militar dos Estados Unidos...

Carta Capital: O que significa "todo" o suporte?

Carlos Alberto Costa: Como já disse, entregamos a ele a tecnologia de algumas das armas que agora iríamos procurar com uma guerra, mas não apenas isso. A Casa Branca e o Departamento de Estado ordenaram ao Banco Export-Import que financiasse o Iraque na guerra. Isso muito antes de os Estados Unidos restaurarem relações diplomáticas com o Iraque, o que só aconteceria em novembro de 1984. E, oficialmente, a nossa posição era de neutralidade.

Carta Capital: A propósito de neutralidade, qual foi a posição real dos Estados Unidos, dos seus serviços secretos, na Guerra das Malvinas, da Argentina contra a Inglaterra, em 1982?

Carlos Alberto Costa: Demos completo suporte de Inteligência, especialmente de satélites, para os ingleses. Fotografávamos, tínhamos a posição dos militares argentinos e passávamos para os ingleses. E, ao mesmo tempo, jogamos também um pouco com os argentinos. Havia uma dúvida: se os ingleses, depois, devolvessem aos argentinos as ilhas, que teriam petróleo em-

baixo, nós íamos querer que os argentinos nos facilitassem o acesso. Vendemos armas para os argentinos, e mais: navios ingleses, se não me engano dois destróieres que eles destruíram, o fizeram com base em nossas informações, de satélites, sobre a posição dos ingleses. Os ingleses ficaram pasmos: "Como é que os argentinos nos localizaram?" Localizaram porque fomos nós que fornecemos suas posições. À época, Margaret Thatcher esteve em Washington e pressionou o presidente Reagan. Só então paramos de fornecer informações aos argentinos. Passamos a enrolá-los.

Carta Capital: Sabe-se que as coisas foram e são assim no mundo real, em especial o das grandes potências, mas essa história...

Carlos Alberto Costa: Essa é a política externa dos Estados Unidos. São as razões pelas quais hoje não temos paz. É um país que sempre foi isolado pelo Atlântico e pelo Pacífico, mas agora isso chegou ao auge. Ninguém duvida que o Saddam Hussein é um criminoso, mas a hipocrisia do nosso governo é insuperável. Quando, com as nossas armas químicas e nosso dinheiro, as mesmas atrocidades foram cometidas por Saddam contra os curdos do norte e as minorias do sul, ignoramos e viramos a cara, até demos suporte. Hoje, usamos isso como argumento para justificar a guerra. Mas não é possível fazer o mundo todo de imbecil todo o tempo..

"ISSO AÍ E O BRASIL, P...! JUST DO IT"
(JUST DO IT = apenas faça isso).

Carta Capital: O que isso quer dizer hoje?

Carlos Alberto Costa: A credibilidade, a fé nos Estados Unidos, já não são as mesmas, por exemplo, na comunidade da União Européia. O euro supera o dólar, os europeus procuram investir na sua própria casa. O valor do dólar é baseado na fé e credibilidade no governo dos Estados Unidos. Qual é o cenário hoje nos EUA?

Carta Capital: Diga-nos.

Carlos Alberto Costa: Clinton havia conseguido um superavit de US$ 127,3 bilhões. Bush, em três anos, cortou impostos, aumentou os gastos, especialmente na área da Defesa, cortou o orçamento de programas sociais e, nesse tempo, produziu um déficit de US$ 541 bilhões de dólares. Esse déficit gera riscos para o mundo. Há muita verdade no velho ditado que diz: "Quando os Estados Unidos espirram, o mundo apanha uma gripe". A desvalorização do dólar terá, em algum momento, como conseqüência, a elevação dos juros.

Carta Capital: Qual será, na economia, o futuro, o legado de Bush?

Carlos Alberto Costa: Para equilibrar suas contas externas, os Estados Unidos precisam de um fluxo de capitais externos de volume equivalente ao déficit, coisa de US$ 1 bilhão/dia de capital estrangeiro. Hoje o país já não consegue viver simplesmente da sua produção. Simultaneamente, a comunidade internacional compreende que pode dispensar os Estados Unidos;

mas os Estados Unidos não podem dispensar o mundo. Os Estados Unidos predatoriamente sacam da economia mundial o máximo que podem. Muito em breve, para manter sua hegemonia e padrão de vida, os Estados Unidos terão que lutar militarmente e diplomaticamente. Somos 4,5% da população do

mundo e consumimos entre 45% e 50% da matéria-prima do planeta. Maiores consumidores de petróleo, emitimos por pessoa, a cada ano, 19,7 toneladas de dió-xido de carbono, que é poluição. O Brasil emite 1,8 tonelada por pessoa. Não se iludam quanto aos Estados Unidos. O que importa são os seus interesses.

Carta Capital: Vocês, agentes secretos, têm plena consciência disso?

Carlos Alberto Costa: Obviamente. Mas nenhum país vai lutar pelos interesses dos outros. Os governantes americanos fazem o que lhes interessa, e viemos aqui para cuidar dos nossos interesses. Ponto final. O resto é retórica.

Carta Capital: Mais claro, impossível.

Carlos Alberto Costa: Posso te falar uma coisa sobre o juiz Sebastião da Silva?

Carta Capital: Aquele juiz que tomou a decisão de fichar os americanos que entram no Brasil?

Carlos Alberto Costa: Sim. Acho que o juiz mostrou uma fortitude testicular, como se diz no vernáculo americano. Isso é manter a dignidade do povo brasileiro. Se estão a tratar mal os brasileiros nos Estados Unidos, então o mesmo tratamento deve ser dado para com os americanos aqui. Eu o considero um bom brasileiro. Não existe razão nenhuma para que se imponha fichação aos cidadãos brasileiros. Nunca tive conhecimento de um ato terrorista cometido por um brasileiro, exceto no seqüestro do embaixador Charles Elbrick, mas mesmo isso foi em um outro contexto, em 1969. Então, por que fichar brasileiros que não só têm sido aliados dos Estados Unidos, mas são um povo pacífico, até demais? É comum na embaixada ouvir relatos de brasileiros maltratados e humilhados quando entram nos Estados Unidos. E isso aumentou muito depois do 11 de setembro.


"RUMSFELD ESTEVE COM SADDAM EM 20 DE DEZEMBRO DE 1982.

ENTREGAMOS A ELE AS TÉCNICAS DO ANTRAZ"


Carta Capital: Há muitas queixas de maus-tratos a brasileiros dentro dos Estados Unidos?

Carlos Alberto Costa: Constantemente. Mas se a nossa própria embaixadora queria ser tratada como se fosse um ser superior a todos...

Carta Capital: A Donna Hrinak?

Carlos Alberto Costa: Ela mesma. Um dia tentou furar uma fila na entrada do seu país, mas foi posta na sua posição. Disseram a ela: "Não, você tem de esperar como todas as outras pessoas". A Polícia Federal agiu certo. Veja o caso do seu ex-chanceler Celso Lafer... foi humilhado, forçado a tirar os sapatos quando embarcava nos Estados Unidos.

Carta Capital: O fato é que aqui parece ser a casa-da-mãe-joana.

Carlos Alberto Costa: Já sei o que é a mãe-joana, e é isso mesmo. Mas, em relação aos Serviços Secretos nossos, ao FBI, até no Congresso dos Estados Unidos já existe uma controvérsia. Alguns congressistas com mais perspicácia questionam a presença operacional do FBI, uma polícia federal, no estrangeiro. Mas os próprios agentes do FBI nos Estados Unidos requerem operações de lá; operações como se o Brasil fosse uma extensão do território norte-americano. Eu recebia instruções assim: "Localize, conduza a investigação apropriada e prenda fulano de tal..."

Carta Capital: Recebia documentos secretos que diziam "localize e prenda tal cidadão", como se você estivesse em Chicago, Miami?

Carlos Alberto Costa: Isso. Diziam: "Esse fugitivo está no Brasil". Eu respondia: "Nós não temos autoridade para fazer uma coisa dessas, temos de trabalhar em conjunto com a Polícia Federal".

Carta Capital: E qual era a contra-argumentação de Washington?

Carlos Alberto Costa: Muitos respondiam, indignados:

"Porra, isso aí é o Brasil! Just do it! (Apenas faça!)".

Carta Capital: Imagino como vocês operam, por exemplo, no Paraguai?

Carlos Alberto Costa: O Paraguai é uma marionete dos Estados Unidos. Isso ninguém contesta. Muitos altíssimos membros do governo têm contato direto com os agentes, é uma ligação direta com a embaixada.

Carta Capital: Inclusive o presidente da República?!

Carlos Alberto Costa: (Risos. Apenas risos.)

Carta Capital: E o Congresso americano...

Carlos Alberto Costa: O Congresso americano, que financia os escritórios do FBI e os outros Serviços no estrangeiro, questiona muitas vezes, mas eles são enrolados pelo bom marketing comunicativo, especialmente o do FBI: o ego da instituição FBI é movido a poder e dinheiro. É comum ouvir os agentes e o comando a dizerem: nós somos os melhores e mais poderosos, temos influência no Congresso para obter orçamento e temos poder. Temos uma unidade na sede em Washington que é só para lidar, influenciar o Congresso quanto a verbas e outros assuntos. O FBI luta tenazmente para manter o seu poder e expandi-lo diante dos outros Serviços. E na verdade o FBI tornou-se uma gorda burocracia que não faz justiça à lenda e ao contribuinte.

Carta Capital: O Congresso brasileiro deveria estar mais preocupado com o que o FBI e os outros serviços estão fazendo aqui do que o Congresso do EUA...

Carlos Alberto Costa: O FBI até não é dos piores. A DEA, por exemplo, "contribui" com milhões de dólares na conta privada de delegados da Polícia Federal... Se quer fazer uma doação, que a faça aberta. Agora, pôr numa conta privada? Isso é indicativo de que alguma coisa está errada.

Carta Capital: Que estão a "influenciar"...

Carlos Alberto Costa: Isso é indicativo de que você compra a polícia e, quando pede alguma coisa, tem de ser dado. Veja a preocupação

número 1, por exemplo, do representante do Departamento de Estado na Seção de Narcóticos, a NAS. A primeira preocupação dele, a número 1, é que a Polícia Federal aceite o dinheiro que ele está a doar, entre aspas. Geralmente, uma quantia que varia, a cada ano, de US$ 1 milhão a US$ 3 milhões.

Carta Capital: Todo ano a preocupação da NAS é que o Brasil aceite o dinheiro que ele está a "doar". Por quê?

Carlos Alberto Costa: Porque, se a Polícia Federal recusar esse dinheiro, não aceitar, esse representante da NAS não será bem avaliado, isso vai afetar a sua carreira. Ele não terá demonstrado capacidade para "influenciar".

Carta Capital: Então, quem não consegue "influenciar" no Brasil, seja a mídia, a polícia, seja o governo, o Parlamento, é um fracasso?

Carlos Alberto Costa: Uma instituição mal remunerada, como a Polícia Federal, que não tem dinheiro para pagar a conta do telefone, não vai aceitar uma doação? Isso é absolutamente ridículo. O Brasil carece de investir no treinamento e no pagamento. Como diz o velho ditado americano, não existe almoço grátis. No FBI, como qualquer outra instituição americana, nós não podemos aceitar um centavo de ninguém. A minha diferença aqui é que eu, como chefe do FBI, não dava dinheiro ao Brasil, não comprava o Brasil. Dava assistência técnica, treinos, treinava os vossos policiais...

Carta Capital: Mas treinar já é "influenciar", você já está a se infiltrar...

Carlos Alberto Costa: Ah, sim, mas isso é natural. Nós treinamos colegas brasileiros em técnicas de investigação, a pedido de vocês. Estamos a desenvolver uma cooperação nesse sentido, não estamos a comprar.

Carta Capital: Voltemos à mídia. Então, jornalistas também são mandados aos EUA?

Carlos Alberto Costa: Isso são outros programas que não têm a ver com o FBI...



"OS ATENTADOS NA ARGENTINA, NOS ANOS 1990, FORAM TRAMADOS DENTRO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO..."


Carta Capital: Têm a ver com a CIA?

Carlos Alberto Costa: Têm a ver, por exemplo, com o Departamento de Estado, que manda, além de jornalistas, outros profissionais para conhecerem os seus iguais. É um intercâmbio... mas voltemos às polícias do Brasil (risos): nós não deveríamos ter, como tivemos e temos, contato direto com as polícias civis, militares. Só deveríamos nos mover com monitoramento da Polícia Federal, e todos se movem aqui como querem. Falamos direto com as polícias, temos relações diretas com, por exemplo, municípios ou polícias civis ou militares. Como eu fazia e como o outro faz ainda.

Carta Capital: Direto com governadores, secretários de Estado, chefes de polícia, comandantes da PM, soldados...

Carlos Alberto Costa: Com todos. Se eu faço e ninguém reclama, continuo a fazer porque está a me servir. Eu tinha mais sucesso nas relações com as polícias estaduais do que, por exemplo, com a Polícia Federal, que está muito isolada, às vezes, da realidade da rua, dos acontecimentos.

Carta Capital: Com você o FBI trabalhava em companhia, em parceria com alguma outra instituição dos EUA?

Carlos Alberto Costa: Sim. A CIA é o nosso primo na área de contra-inteligência, nós trabalhamos muito em conjunto. Muito mais com a CIA do que com a DEA ou outra organização. O FBI é constituído por uma seção criminal e outra de contra-inteligência.

Carta Capital: Na contra-inteligência vocês e a CIA se encontram?

Carlos Alberto Costa: Óbvio, somos colegas, primos.

Carta Capital: Vocês trabalharam juntos na questão da Tríplice Fronteira?

Carlos Alberto Costa: Trabalhamos. A função da CIA é buscar informações fora do seu país. Se o outro país permite, é uma outra questão. Já a função do FBI no estrangeiro está errada. A função do FBI é investigar casos criminais dentro dos Estados Unidos e não fora. Se está fora, é indicativo de que...

Carta Capital: Está fazendo o que não deveria, como, aliás, já indica a própria denominação FBI: Federal Bureau of Investigation. O.k. Federal, mas lá!

Carlos Alberto Costa: É um órgão federal que não deveria ter poder investigatório aqui. É desperdício do dinheiro do contribuinte americano, é falseamento de atividade. Queremos ser tudo e terminamos não sendo nem bons agentes de investigação criminal nem bons agentes de contra-inteligência - que deveria ser um órgão distinto, como em outros países, França, Inglaterra, Espanha...

Carta Capital: Há razões estratégicas para que o FBI atue fora dos Estados Unidos?

Carlos Alberto Costa: Nem o FBI nem a DEA, nem a US Customs nem a NAS, nenhuma instituição policial federal deveria estar no Brasil, fora dos Estados Unidos. A própria "segurança da embaixada", RSO, que também é uma polícia entre eles, tem influência para obter informações da Polícia Federal sobre dados de cidadãos brasileiros. Carta Capital: Ah, é? Até esses?

Carlos Alberto Costa: Eu muitas vezes precisava de uma informação rápida sobre alguém e, para não expor o FBI, pedia a esses seguranças: vão à Polícia Federal obter um cadastro sobre fulano de tal. Em minutos eu tinha a resposta. Um policial brasileiro não tem a mesma facilidade. Em outras situações, eu sentava em frente a um terminal da sua polícia e lia informações sobre brasileiros, estacionava sempre meu carro na garagem da sede da PF. Sabe quando isso aconteceria com um policial brasileiro nos Estados Unidos, na Europa, Ásia? Nunca. Um policial ou representante de uma polícia de um outro país entrar com facilidade e obter informações sobre um cidadão do seu território sem haver uma razão? Acorda, Brasil! Aqui fala quem gosta e respeita o seu país.

Carta Capital: Então essas polícias, entre elas as norte-americanas, estão aqui afazer o quê?

Carlos Alberto Costa: Toda e qualquer coisa que seja do nosso interesse. Ponto final. Mas isso é o que nós chamamos de ações de Inteligência ou contra-inteligência.

Carta Capital: Que eu poderia chamar de espionagem?

Carlos Alberto Costa: Bom, contra-inteligência é uma coisa e espionagem é outra.

Carta Capital: O.k. A rede que você montou no Brasil, pelas minhas informações, é imensa. E isso eram só você e os seus. E a dos demais Serviços?

Carlos Alberto Costa: Bem... Vamos para outro assunto. Veja: há alguns dos meus colegas de outros países com funções limitadas;

eles vêm aqui só para facilitar alguns contatos, por exemplo, na área de drogas, mas eles não estão a comprar. A Espanha tem contatos próprios e não está a comprar ninguém.

Carta Capital: Como é que era o jogo entre vocês, os russos, a ABIN?

Carlos Alberto Costa: A ABIN é um órgão que não dá para definir...

Carta Capital: Não dá para ser definida?

Carlos Alberto Costa: Não dá para ser definida. A ABIN foi criada com as boas intenções de um Serviço de Inteligência, mas não tem as divisas suficientes para se desenvolver. Quando um Serviço de Inteligência se torna pedinte ante estrangeiros, se expõe, deixa de ser secreto. Corre imensos riscos. A ABIN, como a Polícia Federal, pede equipamentos, recursos, treinamento, a vários países, e não apenas aos Estados Unidos. Pedem para Israel, Rússia, Japão, França, entre outros. A ABIN se prostitui. Quando você recebe equipamentos de serviços secretos, deve saber que é rotineira a clonagem...

Carta Capital: O que é clonagem?

Carlos Alberto Costa: É um duplo embutido no seu equipamento, que transfere para o "doador" as informações disponíveis naquele equipamento.

Carta Capital: Uma outra informação que antes não tive como publicar: a ABIN foi grampeada através de equipamentos que vocês haviam fornecido?

Carlos Alberto Costa: Não sei... não posso falar... fazer suposição sobre isso, mas...

Carta Capital: Mas vocês forneceram equipamentos?

Carlos Alberto Costa: ...não sei, mas calculo, pelos meus contatos, que a ABIN tinha também outros países a fornecer equipamentos. Deixa eu lhe dizer uma outra coisa: se eles grampearam ou grampeiam alguém, se eles o fazem com algum equipamento nosso ou alguma coisa, é irrelevante para nós. O uso que outros fazem dos equipamentos não é problema nosso.

Carta Capital: Vocês, os serviços secretos dos EUA, forneceram equipamentos a ABIN para grampear?

Carlos Alberto Costa: Sim. Nós prestamos essa assistência aos nossos parceiros. Mas isso não indica que nós vamos saber aquilo que eles estão a fazer.

Carta Capital: O.k. Agora apenas uma hipótese e não sobre grampeamento direto: se houver a necessidade de monitorar, por exemplo, o que se passa no Palácio da Alvorada num domingo de tarde. Isso é possível?

Carlos Alberto Costa: É. Essa é uma tecnologia, de satélite, que todos sabem que existe.

Carta Capital: A propósito de monitoramento por satélite vem à cabeça o Sivam, Amazônia...

Carlos Alberto Costa: Isso de dizer que os americanos querem a Amazônia é paranóia, é uma invenção dos militares brasileiros para obter verbas. Sempre tive acesso aos documentos secretos e nunca li uma coisa assim, nunca houve esse interesse, nem há. Até porque a invasão da Amazônia seria uma missão impossível. Se nós estamos com esse problema no Iraque, que só tem areia, e fomos derrotados na selva do Vietnã, imagine a Amazônia, um território desconhecido, com milhões de árvores... Seríamos comidos. Senão pelos caboclos, pelo pessoal treinado na selva ou pelos índios, seríamos devorados por mosquitos e cobras. Esqueçam essa paranóia, a maioria dos norte-americanos pensa que Buenos Aires é a capital do Brasil... Eles não têm a menor idéia do que é a Amazônia. Aliás, tenho a impressão de que o meu ilustre presidente não tem a mais vaga idéia nem do que seja a Amazônia. Muito menos onde ela se encontra.

A ABIN SE EXPÕE, ELA SE PROSTITUI (ABIN = Agência Brasileira de Inteligência)

Carta Capital: E o Brasil, eles sabem onde fica?

Carlos Alberto Costa: O ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil Neil Harrington me disse que, quando lhe ofereceram o cargo, teve que olhar no mapa para saber onde era o Brasil. Durante um coquetel, algumas caipirinhas depois, o embaixador me revelou que não conhecia "absolutamente nada" sobre o Brasil, a sua história, cultura, e pensava que a língua aqui falada era o espanhol.

Carta Capital: Terroristas no Brasil. O que é fato, o que é ficção? Vocês apuraram o quê, chegaram aonde?

Carlos Alberto Costa: Fizemos uma investigação conjunta dos atentados à embaixada israelense em Buenos Aires, que em 17 de março de 1992 matou 29 pessoas e feriu centenas, e à sede da AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), que matou 85 pessoas e feriu mais de 300 em 1994. O FBI e a CIA prestaram assistência às autoridades argentinas que investigavam. Eu, antes de assumir no Brasil, tive acesso às informações e reuniões sobre esses assuntos com os próprios argentinos, em Buenos Aires. O que eu posso dizer é que os atentados na Argentina foram organizados no Brasil, em território brasileiro.

Carta Capital: Isso é absolutamente seguro? Foram organizados no Brasil?

Carlos Alberto Costa: Foram organizados no Brasil, na região de Foz do Iguaçu.

Carta Capital: Como? Houve reuniões, encontros?

Carlos Alberto Costa: Foi dali que eles planejaram os atentados. Agora, as pessoas que os organizaram e os fizeram não foram pessoas que necessariamente viviam no Brasil e muito menos eram brasileiros.

Carta Capital: Mas usaram o território brasileiro?

Carlos Alberto Costa: Usaram o território brasileiro, mas ali é uma Tríplice Fronteira...

Carta Capital: Aí entramos numa outra questão:

há células terroristas na fronteira? Vocês investigaram. Há ou não há?

Carlos Alberto Costa: Não há. Planejaram-se atentados ali, é verdade, mas investigamos exaustivamente, nós, a CIA, os serviços secretos dos países, e não conseguimos comprovar a existência de células terroristas ali, no entanto...

Carta Capital: No entanto o quê?

Carlos Alberto Costa: Havia, e há, uma obsessão, uma paranóia do governo Bush, para encontrar terroristas. Ali não há, pelo menos não comprovamos, apesar de amplas investigações. Há simpatizantes, mas essa é

uma outra questão. Sempre houve uma obsessão com a Tríplice Fronteira, e sempre achei isso uma coisa muito ridícula. Os nossos Serviços de Informação e de Inteligência estavam, estão, focados no lugar errado. Na Tríplice Fronteira, existem mais ou menos 40 mil árabes ou descendentes, enquanto São Paulo tem mais libaneses ou descendentes, por exemplo, do que o próprio Líbano.

Carta Capital: O que acontece, então, na Tríplice Fronteira?

Carlos Alberto Costa: Algumas coisas. A primeira delas é que ali é um lugar que por si só é fora-da-lei. É um lugar de contrabando, e muitos desses grupos árabes são bons contrabandistas, bons comerciantes, vamos dizer assim. É um lugar que facilita a troca de mercadorias de segunda classe, pirataria de equipamento, lavagem de dinheiro...

Carta Capital: Mas grupos terroristas vocês nunca detectaram?

Carlos Alberto Costa: Terroristas nunca foram detectados. E investigamos muito, até porque o Brasil sempre perguntou a nós: "Vocês sabem onde estão os grupos terroristas?" O que tem é muita retórica...

Carta Capital: Vocês monitoram aquela fronteira já há muitos anos, não?

Carlos Alberto Costa: Eu, o FBI pelo menos, jamais consegui confirmar um único caso de células terroristas ali. Sempre informei isso e os colegas da CIA informaram o mesmo. O que há são atividades criminosas de outra ordem. Agora, que dinheiro é recolhido para organizações que têm seus braços terroristas, isso é uma outra questão.

Carta Capital: Isso vocês identificaram?

Carlos Alberto Costa: Há quem envie dinheiro para o Hezbollah? É certo que há, mas o Hezbollah é um partido político legal que tem o seu braço armado, terrorista. Bem, em Detroit, em Nova York, nós temos cidadãos americanos que mandam dinheiro para o Hezbollah, para orfanatos, hospitais, mas que destino final tem esse dinheiro é algo tão incerto quanto parte do dinheiro que, Brasil e mundo afora, grupos judaicos enviam para Israel. Quando os israelenses fazem suas operações, alguém financiou, e certamente o fez via um braço legal. Da mesma forma, em Boston, em Nova York, simpatizantes do IRA

mandam e sempre mandaram dinheiro para a Irlanda....

Carta Capital: E o IRA é também um partido político com vida legal, assim como os bascos têm partido político com vida legal...

Carlos Alberto Costa: A própria família Kennedy, de católicos irlandeses, sempre simpatizou com os católicos irlandeses, e esses envolvimentos às vezes são arriscados. Você manda uma contribuição para uma escola, mas não tem certeza se aquele dinheiro, ou todo ele, servirá exatamente à escola. Mas, se você me pergunta se é possível que dinheiro da Tríplice Fronteira chegue aos braços armados do Hezbollah, aí eu respondo: "Sim, possível é, o que não quer dizer que tenha sido confirmado".

Carta Capital: Bem, vocês têm uma extrema-direita que age dentro do próprio território americano, com atentados...

Carlos Alberto Costa: Essas milícias de direita que provocam e provocaram atentados como em Oklahoma existem, isso é fato. Como é

fato que o que temos hoje no governo dos Estados Unidos são facções políticas também da extrema-direita, e elas estão a alienar cada vez mais o país do mundo.

Carta Capital: Dentro dessa moldura, do pós 11 de setembro, houve a determinação, um empenho extra para que vocês achassem terroristas dentro do Brasil?

Carlos Alberto Costa: Sim. Em todo o mundo, e também no Brasil. Mas essa é uma outra questão muito delicada...

Carta Capital: Muito delicada por quê? O senhor, além daquela, recebeu alguma outra ordem, instrução, determinação específica relacionada ao Brasil...

Carlos Alberto Costa: Bem... Depois do 11 de setembro, o FBI queria justificar que estava a fazer alguma coisa contra o terrorismo. E muita gente dentro do FBI não tem noção de como combater o terrorismo, não faz a mínima idéia...


Comentários Politicamente (In)Corretos

Fosse na civilização, haveria uma investigação e muitos seriam mandados para a cadeira, por traição, pelo resto da vida, já na E$bórnia........

Isso foi em 2004, alguém ouviu alguma manifestação sobre isso?