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domingo, 24 de outubro de 2010

PT bloqueia investigação da Polícia Federal

Quase três anos depois de ter sido aberto para apurar doações supostamente ilegais de R$ 500 mil ao PT, por empresas ligadas ao caso de fraude fiscal da Cisco, o inquérito da Polícia Federal segue inconcluso. 

As doações foram feitas por duas empresas fantasmas, segundo a PF, que também foram usadas pela Cisco para fraudar importações, apuração que resultou numa das maiores autuações da Receita, de R$ 3,3 bilhões. 

As duas empresas que deram dinheiro ao PT não existem, segundo a PF e o Ministério Público Federal.
O inquérito foi aberto em 4 de dezembro de 2007 no rastro da Operação Persona, que apurava fraudes em importações pela Cisco. Seu objetivo é apurar corrupção ativa (quem deu o dinheiro) e passiva (quem recebeu). 

No mês passado, a Justiça bloqueou os bens da Cisco e pessoas ligadas ao caso para garantir o pagamento da autuação bilionária. 

No curso da Operação Persona, de 2006, escutas feitas pela PF apontaram que um diretor da Cisco combinava que daria dinheiro ao PT em troca de um contrato de R$ 9 milhões com a Caixa Econômica Federal. Uma revendedora da Cisco, a Damovo, obteve o contrato da CEF. 

Na mesma época, em setembro de 2006, às vésperas das eleições presidenciais, duas empresas desconhecidas --ABC Industrial e a Nacional Distribuidora de Eletrônicos-- doaram R$ 250 mil cada uma para o PT. 

As empresas são as mesmas que, segundo a denúncia aceita pela Justiça, foram usadas pela Cisco na fraude. Elas não têm capacidade para doar essas quantias, segundo as investigações. 

HISTÓRICO
A PF concluiu que as empresas são fantasmas porque não tinham um histórico de negócios e seus sócios seriam laranjas _um deles, que controlaria 95% das ações da Nacional, teve rendimentos de R$ 17.493,32 em 2006 (média de R$ 1.458 por mês). Não é preciso ser Sherlock Holmes para concluir que, quem ganha esse valor, não tem como doar R$ 250 mil.
O inquérito para apurar o caso não era nenhum bicho de sete cabeças, segundo três delegados da PF ouvidos pela Folha: havia as conversas telefônicas e duas empresas fantasmas fazendo doações.
Havia os documentos com os nomes dos controladores da empresas: Cid Guardia Filho e Ernani Bertino Maciel, segundo a Polícia Federal. Os dois eram da Mude, a maior distribuidora da Cisco.
O delegado que assumiu o inquérito, Mario Menin Jr., não intimou nenhum dos dois supostos controladores. Só pediu o depoimento deles no caso da importações supostamente irregulares da Cisco --nem isso foi anexado ao inquérito. Solicitou a um agente da PF que levantasse a ficha das empresas --o que também não deu certo. Em vez da ABC Industrial, ele juntou dados da ABR.
O inquérito foi remetido em 30 de outubro de 2008 para Brasília por sugestão da PF em São Paulo. No dia 6 de novembro de 2008, um novo inquérito foi instaurado pela PF em Brasília.
Em maio de 2009, o Ministério Público Federal requisitou à Justiça quebras de sigilo e diligências, o que veio a ocorrer em fevereiro deste ano. Em março, o inquérito voltou à PF para que a corporação fizesse diligências.
O delegado do caso, Flavio Calil, disse não ter ouvido nem mesmo Sandra Tumelero, então diretora de contas da Cisco junto à CEF que, nos grampos da PF, diz já ter os "recibos" em mãos.
OUTRO LADO
O delegado da Polícia Federal Flavio Calil afirma que vem adotando todas as medidas em relação ao caso: "Desde que o inquérito saiu de São Paulo, passou a maior parte do tempo no Ministério Público. E, desde o retorno à PF, existe a tentativa de executar e exaurir as determinações judiciais e ministeriais".
Segundo o delegado, "está sendo dada a celeridade e a prioridade necessárias".
O Ministério Público Federal nega com veemência a acusação da PF de que o inquérito ficou parado um ano com a procuradora Luciana Marcelino. Segundo a Procuradoria, num dos trâmites, o processo ficou nove meses na Justiça para ser apreciado.
A Cisco diz que "nunca realizou ou autorizou qualquer doação imprópria a partidos políticos, nem diretamente nem por meio de terceiros". O advogado da Mude, Paulo Morais, diz que a empresa "desconhece qualquer doação que tenha sido feita a qualquer partido" em troca dum suposto contrato.
Sandra Tumelero, ex-diretora da Cisco, não quis falar.
João Paulo Soares, da secretaria de Comunicação do PT, diz que o partido registrou as doações na Justiça Eleitoral e que as demais questões não cabem ao PT.



Comentários Politicamente (In)Corretos

Em ano de eleição, com tanto rabo preso, o PT não quer ver esse inquérito nem que ligasse isso aos tucanos.

sábado, 24 de abril de 2010

Mais das antigas revelações sobre as relações da PF e FBI/CIA

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SOBERANIA ZERO

Do Blog Polícia e Segurança

Imagine-se a Drug Enforcement Administration (DEA), uma das 19 agências policiais norte-americanas - esta de combate ao narcotráfico -, numa operação, na fronteira dos Estados Unidos com o México. Imagine-se que tal operação, de US$ 3 milhões, é totalmente paga pelo governo brasileiro. Imagine-se que 15% desses US$ 3 milhões doados pelo governo brasileiro são usados pela DEA para pagar diárias, passagens aéreas, hospedagens de seus agentes e delegados. Isso, óbvio, só pode brotar numa imaginação muito fértil. Já o contrário existe. No Brasil.
Na fronteira norte do Brasil está em curso, há um ano e meio, a Operação Cobra. Os Estados Unidos pagam os US$ 3 milhões da operação, realizada pela Polícia Federal do Brasil.

Como tem sido norma, diárias, passagens e hospedagens de agentes e delegados do Brasil são, ao menos parte delas, pagas pelos norte-americanos. O dinheiro é da DEA.
O delegado Getúlio Bezerra, chefe da CGPRE, a divisão de repressão a entorpecentes da PF, em entrevista a CartaCapital (na página 30), confirma:
- De fato, uns 12%, não chega a 15% desses US$ 3 milhões deles, são usados para passagens, diárias, hospedagens. Mas tudo planejado com eles...
"Eles", os norte-americanos da DEA. Três anos depois de uma série de matérias de CartaCapital sobre a atuação da DEA, e da CIA, como hóspedes e financiadores da porção mais secreta e sensível das ações da PF do Brasil, surgem provas concretas.
As provas não estão na confirmação de Bezerra às informações sobre detalhes financeiro-administrativos da Operação Cobra. As provas surgiram numa CPI, a do Narcotráfico.
O Banco Central, a pedidos, entregou à CPI toda a movimentação de entrada e saída de dinheiro do País, via conta CC-5, entre os anos 1996/1999. Em meio à movimentação, o elo financeiro, a simbiose entre a Inteligência dos EUA e a PF do Brasil.
São dezenas de remessas. No total, aproximam-se dos R$ 2 milhões nesse período. E não são remessas em nome da instituição Polícia Federal. É dinheiro repassado em nome dos titulares da divisão de repressão a entorpecentes.
O mecanismo: o dinheiro entrava via CC-5 e Citibank. Na embaixada americana, em Brasília, a NAS - outra das agências antinarcóticos dos EUA, e controladora das verbas também da DEA - fazia, e ainda faz, o dinheiro seguir.
Em cheques, o dinheiro chegava, e chega, à divisão de repressão a entorpecentes da PF e entrava, como ainda entra, numa conta aberta em nome do titular da divisão. Conta com a sub-rubrica da divisão e movimentada por mais de um delegado.
No caso dos documentos obtidos por CartaCapital, remessas para uma conta aberta em nome do atual chefe da divisão, Getúlio Bezerra dos Santos, e do seu antecessor, Marco Antonio Cavaleiro.

No total, entre 1996 e 1999, uns R$ 1 milhão e 200 na conta aberta em nome de Cavaleiro e uns R$ 800 mil em nome de Bezerra. Claro que o Tribunal de Contas da União jamais ouviu falar nisso.
Antes deles, vale recordar, à época dos titulares da DRE Paulo Magalhães e Sergio Sakon, o mesmo sistema era usado.
O Ministério Público dispõe do material, o mesmo que chegou atualizado a uma CPI mais recente, a do Futebol, no Senado.
Nesta semana, o deputado Walter Pinheiro (PT-BA) encaminha requerimentos de informações sobre o tema ao general Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência e titular da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad).
O pedido de informações segue também para o ministro da Justiça, Miguel Reale, e à chefia da Polícia Federal.
São convidados a prestar esclarecimentos na Câmara, por solicitação de Walter Pinheiro, os ministros Cardoso e Reale, a chefia da PF e o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer.
Cavaleiro deixou o cargo em 1999, exonerado depois de trombar com o então diretor-geral da Polícia, Vicente Chelotti. Desde então, Bezerra é o titular na Entorpecentes.
A briga entre Chelotti e Cavaleiro é a responsável pelo surgimento do elo financeiro agora. Na CPI do Narcotráfico, quando surgiram as movimentações via CC-5, um delegado, ligado a Chelotti, mirando em Cavaleiro enviou-as para o diretor da PF, Agílio Monteiro.
O ofício seguiu seu curso e hoje repousa num conjunto de documentos "classificados", leia-se secretos, no 2º andar do prédio-sede da PF.
Um dos documentos, o enviado a All Bryant, da Assuntos de Narcóticos, a NAS. É o ofício 719 da DRE/Coordenação Geral Central de Polícia, de 24 de março de 2000.

Neste documento, que se segue a um pedido de explicações do diretor da PF sobre a movimentação via CC-5, Bezerra pede a Bryant:
- Solicito indicar as destinações, se possível, bem como esclarecer se houve a comprovação de suas aplicações (prestações de contas).
A 17 de maio de 2000, John C. Mariz, diretor-interino da NAS, responde. A resposta é um atestado do uso correto das verbas repassadas a Bezerra e a Cavaleiro.
Aliás, o que se discute aqui não é a honestidade, que mesmo adversários de ambos não colocam em dúvida, e sim a subserviência da PF, do governo do Brasil, a verbas e interesses norte-americanos.
John Mariz atesta; atestado que já é um resumo desta ópera:
- As transferências constando da sua lista enviada através da divisão foram realizadas de acordo com as regras estabelecidas pelo acordo de cooperação entre o governo da República Federativa do Brasil e o governo dos Estados Unidos para redução da demanda, prevenção do uso indevido e combate à produção e ao tráfico de entorpecentes.
Acordo esse de abril de 1995. Pelo Brasil, assinou o ministro das Relações Exteriores, Luís Felipe Lampreia. Pelo governo dos EUA, o então embaixador Melvyn Levitsky.

O acordo, renovado a cada ano desde um anterior, de 1986, é chamado de "Guarda-Chuva". É o que ele é. Um guarda-chuva que a tudo abriga e protege. O atual trata, genericamente, de projetos.
Projetos de repressão ao tráfico de drogas na Amazônia, de treinamento de agentes, de redução de demanda, do estabelecimento de unidades especiais e de apoio ao grupo especial de investigação. Em 2001, para tais projetos os EUA destinaram ao Brasil US$ 5 milhões e 792 mil.
Quando se chega à ingerência dos norte-americanos na PF, saca-se o acordo guarda-chuva como resposta. Uma resposta que será, sempre, incompleta.
Acordo ou convênio algum pode, sem ferir leis, autorizar a agência de um governo estrangeiro a depositar numa conta, em nome pessoal, de delegados da Polícia Federal do Brasil.
Não é possível que algum acordo, ou convênio, mesmo que secreto, autorize a DEA a pagar diárias, passagens, hospedagens de agentes e delegados da PF, além de financiar as operações.
Como outros de seus colegas ouvidos por CartaCapital, o procurador da República, Luiz Francisco Fernandes de Souza (leia na página 26), diz:
- Não pode, não pode. Essas transferências não podem ser feitas assim, de jeito nenhum, sem contar que isso afronta, pisa na soberania do País. Se alguém fizer apenas parecido nos Estados Unidos, é preso na hora, quem pagar e quem receber.
Chega-se agora às provas da movimentação financeira entre DEA e PF. Movimentação, como já assinalado, acobertada pelo tal guarda-chuva.
As provas, que chegaram também à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), vieram à luz no rastro da animosidade entre os delegados Chelotti e Cavaleiro.
A disputa entre ambos já tema de CartaCapital nas edições 92, 97 e 98, tinha, ao fundo, a presença norte-americana na PF.
Historicamente, ao longo das duas últimas décadas, a DEA opera com a Entorpecentes, por onde passou Cavaleiro. Já Chelotti, como diretor-geral, tinha próximo a si o Centro de Dados Operacionais (CDO), ligado à CIA.
O ex-CDO, hoje Serviço de Operações de Inteligência Policial (Soip), teve seu prédio construído, tijolo por tijolo, a partir da segunda metade dos anos 80, com dinheiro da CIA, via Departamento de Estado.

As primeiras duas dezenas de automóveis da PF no então CDO, inicialmente sob o comando do delegado José Antonio da Costa Mariz (o chefe da CIA se chamava Blocker), foram doação da CIA.
Automóveis, claro, em nome de terceiros. Hoje o Soip é chefiado pelo delegado Lawrence. Os delegados Mariz, Edson Resende, Wilson Damásio, Edson Oliveira, Mario José, no CDO ou em outras divisões da PF, trabalharam com os norte-americanos.
Nos anos 90, o CDO chegou a manter 15 escritórios no País. Desativou-os, mantinha quatro em 1999 (Belém, Cuiabá, Porto Velho e Brasília) e agora amplia novamente sua rede.
O Soip é regido pelo sistema de "informação compartilhada". Quem compartilha suas informações é a CIA.
Agentes que fossem trabalhar, que trabalhem no CDO, tinham, têm de passar antes por Washington.
Lá, não na sede da CIA, em Langley, Virgínia, mas em hotéis da capital, submetiam-se a testes no detector de mentiras. Informe-se que o mesmo sistema segue em vigor.
Dentre os que passaram por tal vestibular, citem-se os agentes Tadeu, Sérgio, Trindade, Ricardo, Lima, Paulo, os delegados Mário, José Roberto... Quem chefiou o então CDO ou trabalhou em conjunto com a CIA, passou pelo teste.
Do CDO, no início do governo Fernando Henrique Cardoso, dois agentes foram os executores do grampo telefônico que levou à queda do chefe do cerimonial do Palácio do Planalto, Júlio César Gomes dos Santos.

Naqueles dias, depois de obter uma ordem judicial, para investigação de um caso de tráfico de drogas (modus operandi habitual da CIA/CDO), a PF interceptou e gravou conversas de Júlio César com o presidente da República.
Nas conversas, além de temas mais, digamos, amenos, o presidente Fernando Henrique Cardoso e o embaixador Júlio Cesar trataram do assunto Sivam.
Projeto de US$ 1,4 bilhão, o Sivam opunha, na concorrência, franceses e norte-americanos. Recorde-se que Bill Clinton, o presidente dos EUA, ligou para FHC e pediu apoio ao projeto.
Enquanto Clinton tratava do assunto, a CIA, via informações e grampos compartilhados com o CDO, sabia do que e com quem o presidente do Brasil conversava ao telefone.
Esta história dos bastidores do escândalo Sivam é um ligeiro rememorar de fatos já relatados por CartaCapital.
À disposição no endereço eletrônico www.cartacapital.com.br.
Há quem não acredite nos fatos. Há quem não queira acreditar, como há quem os conheça e os negue. O que não se pode negar são os documentos oficiais. Ainda mais os reservados.
A seguir, CartaCapital trata de outros dois desses documentos guardados em gavetas reservadas dos serviços de inteligência e na Presidência da República.
Um deles é de 1985. O Brasil negociava o acordo de cooperação com os Estados Unidos, e a DEA. O secretário-geral do Ministério da Justiça, José Paulo Cavalcanti Filho, era um negociador brasileiro.
Cavalcanti estranhou que, além dos identificáveis homens da DEA, um expressivo número de agentes outros e militares dos EUA solicitavam visto.
Aquele era um tempo de dificuldades de acesso aos EUA e, reciprocidade diplomática, de acesso de norte-americanos ao Brasil. Diante da extensa lista de norte-americanos, Cavalcanti produziu um relatório reservado, endereçado ao presidente da República.
José Sarney recebeu o relatório. Nele, a suspeita de que militares dos Estados Unidos, valendo-se do tal guarda-chuva, infiltravam-se para chegar às questões da fronteira norte do Brasil.
O documento segue "classificado". José Paulo Cavalcanti, ouvido a respeito do documento manuseado por CartaCapital em Brasília, disse o que se deve dizer nessas ocasiões:
- Esse é um relatório reservado, não posso tratar deste assunto em público. Isso pertence à Presidência da República.
CartaCapital publica (confira na página 27) trechos de outro contundente, e decisivo, documento "classificado".
Decisivo para quem, ainda que crédulo, se dispuser a perceber qual é o teor das relações carnais entre a polícia, o setor de Inteligência do Brasil e representantes dos EUA.
O ofício 133/99 saiu do gabinete da Senad, assinado pelo então titular, Wálter Fanganiello Maierovitch, em 6 de maio de 1999. Foi endereçado ao general Alberto Mendes Cardoso.

O documento é um relato da atuação irregular de agentes norte-americanos no Brasil, da sem-cerimônia desta atuação e mesmo do desrespeito ao País.
Está relatado logo no início:
- ...frustradas tentativas... ...de manter e melhorar a cooperação internacional no enfrentamento do fenômeno das drogas.
Segue a descrição:
- Com exceção dos norte-americanos, todos os adidos das demais embaixadas contactaram com a Senad, aceitando parcerias e prestigiando o novo sistema.
Aguardava-se, à época, que James Derham, o encarregado de negócios, segundo homem na hierarquia da embaixada dos EUA, aceitasse a Senad.
Escreveu Maierovitch no relatório:
- "Lembrado da necessidade de representantes das agências DEA e CIA reportarem-se à Senad, recebe-se resposta de que comunicações eram feitas à Polícia Federal..."
No relatório é descrita a resistência, também, dos chefes da DEA, Pat Healy, e da CIA, Craig Peters Osth, de aceitar a movimentação no Brasil sob o comando da Senad.
Eles estavam, como estão ainda, acostumados apenas à espaçosa hospedagem na Polícia Federal. Recorde-se. Craig Peters Osth deixou o Brasil após a entrevista e presença na matéria de capa de CartaCapital edição 97.
Na edição seguinte, James Derham chegaria à capa com o desabafo feito na embaixada da França, após a decisão pela saída de Osth:
- O dinheiro é nosso, as regras são nossas.
Derham, por conta de tanto, também teve de deixar o Brasil. No relatório ao general Cardoso, Maierovitch descreve um constrangedor embate dentro do próprio Palácio do Planalto:
- ...James Derham trocou a costumeira urbanidade por trato marcado por linguajar desabrido. Encontrando, por acaso, este Secretário Nacional na porta de ingresso do elevador do Palácio do Planalto, começou a externar inconformismo e, tomado pela exaltação da sua tese de que só devia satisfações à Polícia Federal diante do estabelecido no acordo, passou a bramir, tendo sido com urbanidade advertido de que estava a faltar com o devido respeito e que vitupérios não seriam aceitos. Foi, também, advertido de que a conversa, pelo seu estado de descontrole emocional, estava encerrada.
Esses são os fatos. Este último, dentro do Palácio do Planalto, dois andares abaixo da sala do presidente da República.
E há quem ainda considere trivial, natural, um governo estrangeiro financiar atividades, ações, gestos e atos da Polícia Federal do Brasil.
Naqueles dias ainda havia resistências. A da Senad é o maior exemplo. Já se discutia ali outro programa norte-americano, a Task Force, um conceito defendido pelo FBI e pela Procuradoria dos Estados Unidos.
O programa prega a atuação conjunta de polícias, procuradores, bancos, na prevenção e repressão ao tráfico de drogas e ao crime organizado.
Tudo perfeito. Não fossem, mais uma vez, os patrocínios, no caso via FBI, e a monitoração dos caminhos.
Na quinta-feira 11, por exemplo, reuniram-se em Tabatinga, fronteira com a Colômbia, representantes dos países andinos.

Encontro do Idec, organização à qual é ligado o conceito da Task Force. Em Tabatinga, presente a DEA. O delegado Bezerra, na entrevista a CartaCapital, conta:
- Nós somos independentes. Neste encontro do Idec tem países, como o Suriname, que chegam aqui no avião da DEA.
Passaram-se três anos desde quando discutia-se a Task Force, a força-tarefa. De lá para cá o FBI conseguiu autorização para instalar um escritório no Brasil.
Desde então, multiplicam-se as palestras patrocinadas pelo FBI Brasil afora.
Há um mês o encontro foi em Salvador. Desta segunda-feira15 à sexta-feira 19, acontece em Curitiba o Seminário Internacional de Prevenção e Repressão à Lavagem de Dinheiro e à Corrupção na Administração Pública.
Os organizadores anunciam a presença do governador Jaime Lerner, do ministro da Justiça, Miguel Reale, da corregedora-geral Anadyr Mendonça, e palestras inúmeras.
Getúlio Bezerra, da PF, vai falar. Como falarão, todos os dias, os senhores do FBI, Richard Boscovitch, Richard Cavalieros e Rodney A. Morgan.
Para se entender melhor a história e a correlação de forças. As 19 agências norte-americanas disputam, no Congresso dos EUA, verbas, espaços, e têm satisfações a dar.

Se forem menos eficazes, perdem verbas. O que significa menos empregos. Como já não há comunistas, e só agora o terrorismo retorna como inimigo de grandes proporções, as agências dedicaram-se, nos últimos anos, ao combate ao narcotráfico.
As ações se ampliam mundo afora. O Brasil é apenas mais uma base e laboratório. Juntos, DEA, CIA e FBI manejavam há três anos um orçamento superior aos US$ 40 bilhões (atenção, bilhões de dólares).
Imagine-se quem a Polícia Federal hospeda. Em troca de patrocínio às suas operações mais sensíveis e secretas. Em troca de um adjutoriozinho para passagens, diárias, hospedagens.
Ah, mas tem o acordo de cooperação!
Então, tá.
Em tempo: a Polícia Federal do Brasil, por falta de dinheiro, deve R$ 21 milhões na praça. De restos a pagar do ano 2001.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Mais uma da série, recordar é viver: A representação da CIA dentro da Polícia Federal

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Mas mantendo a linha para falar dos donos do País, que não são somente os nativos, outra reportagem de Bob Fernandes, derivada da entrevista com Carlos Costa, ex espião americano e ex "chefe" da polícia federal brasileira.

A CIA & COMPANHIA
Dois delegados da Polícia Federal, um já aposentado, contam em minúcias a história do CDO, instalação da Agência no Brasil

Por Bob Fernandes

Confira na edição impressa:
A HORA DO RESGATE
Delegado que, dentro da PF, enfrentou a CIA ainda em 1997 revela em detalhes a dimensão da ingerência dos EUA. E da submissão...

RÔMULO, O HISTORIADOR...
Corregedor produziu relatório que radiografa a promiscuidade entre a Agência e a PF desde 1988, e afirma que não há base legal (para o CDO-CIA).



Terça-feira 13, oito da noite. Carlos Costa, chefe do FBI no Brasil de 1999 a 2003, está no gabinete do senador Eduardo Suplicy (PT-SP). Conversa informalmente com os deputados Dr. Rosinha (PT-PR), Maninha (PT-DF) e Fernando Gabeira (RJ, sem partido). Já deveria ter sido iniciada, às seis e meia, a sessão secreta das Comissões de Inteligência e Relações Exteriores que ouviria Costa sobre a ingerência dos serviços secretos e policiais dos Estados Unidos no Brasil. Sessões na Câmara e no Senado se arrastam. Às dez da noite, a decisão é tomada. O depoimento de Costa se dará às nove e meia da manhã do dia 28 de abril.

Pouco antes, outra sessão secreta havia sido adiada. A do dia seguinte, quando deporiam, como convidados, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Félix, e o diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda. No Senado, a informação: os ministros optaram por adiar seus depoimentos porque preferiam saber antes o que falaria Carlos Costa.

Dez e meia da noite. O senador Suplicy, à porta de seu gabinete, relata:

– A embaixadora dos Estados Unidos, Donna Hrinak, me disse que seria melhor o senhor Carlos Alberto Costa dar o seu depoimento reservadamente, porque se o seu depoimento for público o governo norte-americano pode decidir processá-lo.

Quarta-feira, sete da noite. O delegado da Polícia Federal, já aposentado, José Roberto Benedito Pereira, 53 anos, conversa por uma hora com CartaCapital. Entrevista a seguir, das páginas 18 a 22. Ex-chefe de gabinete do então diretor da PF, Vicente Chelotti, ex-corregedor-geral da Polícia, José Roberto abre a alma.

Em detalhes, confirma a longínqua e estreita relação da Polícia Federal com os serviços secretos dos Estados Unidos. No varejo, atesta o que Carlos Costa afirmou no atacado quando de sua entrevista a CartaCapital (edição 283, que pode ser encontrada no www.cartacapital.com.br, na seção Grampos e Espionagem junto a outras sete edições que tratam do mesmo tema, a presença de CIA, DEA, FBI e assemelhados, e as atividades de espionagem dos EUA no Brasil).

O delegado José Roberto ascendeu junto com Chelotti. O projeto previa, entre outros pontos, “enquadrar os americanos”. José Roberto, assim como outro delegado, Luís Carlos Zubcov, tentou enfrentar a CIA. Ambos caíram. Chelotti, relata o delegado, “perfilou-se com a CIA”.

O delegado desce a minúcias. Recorda os debates sobre a CIA na PF, vai muito mais além, mas também confirma, com a autoridade de quem viveu os fatos, o que CartaCapital revela, desde 99, sobre a ação dos serviços secretos dos EUA no Brasil.

José Roberto conta: o Centro de Dados Operacionais (CDO), depois chamado SOIP e hoje COIE, funcionou desde sempre em regime de informação compartilhada com a CIA. Dali foi feito o grampo que flagrou, em 1995, o presidente Fernando Henrique em conversas com o chefe do cerimonial, Júlio César Gomes dos Santos.

Conversas particulares, mas também sobre o Sivam, então de enorme intere$$e para a CIA e os Estados Unidos. (Em tempo. O grampo revelado por CartaCapital há três edições é outro. Foi feito diretamente por serviços secretos dos EUA nos palácios Alvorada e Itamaraty.) O delegado José Roberto recorda minúcias dos tempos FHC, como rememora sua ida a Washington para se submeter ao teste do detector de mentiras lá então aplicado pela CIA em policiais brasileiros.

O delegado, em seu retorno, escreveu a memorável peça, então documento “confidencial”, intitulado “São Tomé, Ver para Crer”. O documento, que depois seria parte de sindicância interna, integra também o processo que o levaria a se tornar um pária dentro da própria Polícia Federal, encostado nos corredores, sem função, pois não havia quem, em pleno governo Fernando Henrique, decidisse “enfrentar os americanos e abrir mão das verbas deles”.

José Roberto terminou requisitado pela Presidência da República para a ABIN, e de lá assistiu à queda de Chelotti. Pouco adiantou. O enfrentamento, inclusive em uma reunião dentro do próprio CDO, selara seu destino. Ninguém, então, arrostava os norte-americanos dentro da PF e via a carreira sobreviver.

Rômulo Fish de Berrêdo Menezes, 36 anos, da Corregedoria e lotado no Senado no momento, é outro delegado da Polícia Federal. Rômulo é autor do relatório que percorre a história das sindicâncias e rastreia os passos da CIA – ou dos “americanos”, como diz ele quando se prende às formalidades legais – dentro da PF, na base do CDO, hoje COIE.

O relatório, brilhante e corajoso, assegura não existir sequer amparo legal para a existência do CDO-COIE nas bases em que funciona, com subvenção dos Estados Unidos.

Na entrevista a CartaCapital Berrêdo descreve o quase inacreditável. Como, até o ano 2000, nas dependências da Polícia Federal um doleiro fazia câmbio, para a PF, com dólares da CIA. Melhor, “dos americanos”. A revista IstoÉ, em sua edição passada, revelou a existência do doleiro e suas ligações.

Em seu relatório, minucioso, Berrêdo colhe o depoimento de 14 agentes e delegados e, ainda que sem descuidar das formalidades legais, na tomada de depoimentos, escancara, nas linhas e entrelinhas, as longevas pegadas da CIA dentro da casa da polícia do Brasil.

Quinta-feira 15. Final da tarde, avenida L2 Sul, Brasília, Procuradoria da República. O doleiro Georges Fouad Kammoun acaba de depor ao procurador Luiz Francisco Fernandes de Souza.

O doleiro Fouad relata que sua relação com a PF teve início em 1988, tempos, aliás, em que se instalava a base CDO-CIA. No primeiro câmbio, US$ 170 mil. Ao longo de 12 anos, trabalhou cerca de 140 meses para a PF. Pelas contas do próprio doleiro – imagine-se tais contas – trocou-se algo como US$ 746 mil.

Fouad disse ao procurador imaginar que a própria embaixada dos Estados Unidos o indicou para o honorável posto de conversor de dólares dos americanos para a polícia do Brasil. Afirmou ainda, e isso Berrêdo descreve em sua entrevista a CartaCapital, que fazia palestras para os funcionários do CDO.

Em seguida à entrevista de Carlos Costa, dada a perplexidade que declarações devastadoras como aquelas provocam, seria natural que, como se deu, cidadãos ansiassem por mais evidências, provas.

Nesse sentido, parecem ser implacáveis, definitivas, as entrevistas dos delegados José Roberto e Berrêdo nas páginas que se seguem. Um, o primeiro, viveu a história da CIA na Polícia Federal na própria pele. E pagou caro por isso.
O outro, Berrêdo, minuciosa e exaustivamente, recolheu as histórias, a história, as provas e a inexistência de amparo legal para tal parceria. Que já seria grave ainda que existissem acordos e convênios a resguardá-la. Um país, um Estado, não faz acordos, muito menos de submissão, com outro país. Muito menos com os Estados Unidos. E ainda menos com a CIA.

Quinta-feira 15, início da noite. O procurador Luiz Francisco envia ao diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda, trechos do relatório final do delegado Rômulo Berrêdo, do doleiro Georges Fouad, encerrado pouco antes, e solicita o envio de “contas, recibos e despesas, realizadas desde 1988, com recursos oriundos da embaixada dos EUA”, em especial “os recebidos pelo CDO, atual COIE”.

Requer ainda o procurador “tombamento de bens obtidos com esses recursos” e, por fim, “recomenda” que a PF cesse “imediatamente de operar com o esquema de ‘caixa-preta’, ou seja, com recursos obtidos da embaixada dos EUA, ou de agências de investigação ou ligadas ao governo dos EUA...”. Por fim, o procurador solicita “abertura imediata de inquérito policial para apurar todos os fatos”.

A bem dos fatos, registre-se que quanto ao inquérito policial a própria polícia se antecipou. Com base na entrevista de Carlos Costa e nas edições 283 e 284, o diretor da PF, Paulo Lacerda, já ordenara a instauração de um inquérito policial.

O pedido de inquérito, datado de 7 de abril, é amplo. Abarca desde indícios de prevaricação à possível violação de soberania, e eventuais crimes na utilização de verbas. O pedido do procurador na noite da quinta e qualquer outro que seja feito nesse caso serão agregados. Recorde-se que um inquérito como esse só poderá ser arquivado por decisão da Justiça.

Comentário Politicamente (In)Correto

Passados 6 anos, nada de concreto foi feito e os traidores continuam trabalhando nos mesmos lugares, como diz a expressão, só mudaram algumas moscas.

sábado, 6 de março de 2010

O país dos ladrões, a maioria de terno e gravata

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Da Folha de sábado.

De cada R$ 100 destinados a obras públicas no brasil, R$ 29 são superfaturados, foi o que concluiu uma investigação da polícia federal, que avaliou mais de 300 contratos.

O relatório da PF apontou Rio de Janeiro (R$ 148 milhões), Goiás (R$ 136 milhões) e São Paulo (R$ 134 milhões) como os líderes do ranking do superfaturamento por valor. Entre as obras analisadas, há desde contratos assinados em 1994 até alguns de 2009, abrangendo três governos.

A investigação incluiram união, estados e municípios que receberam recursos da união. Foram analisadas obras e serviços em prédios, ruas, estradas, rodovias, portos, aeroportos, obras de saneamento, etc.

Comentário Politicamente (In)Correto

Resta saber agora se isso vai virar um inquérito, se alguém vai ser punido e o dinheiro recuperado, o que duvido muito, afinal, esse virou um país de ladrões.