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segunda-feira, 31 de maio de 2010

As condições de trabalho na China - Escravos Pós Modernos - Grand Finale

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Para evitar os suicídios, a Foxconn vai providenciar auxílio psiquiátrico e colocar redes ao redor dos prédios, para evitar que as pessoas continuem se jogando.

Quando a rever as condições de trabalho e de moradia dos quase escravos, nada.....

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Do jornal A Gazeta do Povo
31/05/2010

Empresa toma medidas para impedir mortes em fábrica

A Foxconn Technology, provedora taiwanesa de componentes para a Apple, anunciou na semana passada várias medidas para enfrentar uma onda de suicídios em sua fábrica do sul da China. As providências – que já vêm so­­frendo críticas – incluem fa­­zer com que seus funcionários se comprometam por escrito a não tirar a própria vida e a fazer um tratamento psiquiátrico em caso de necessidade. A companhia tam­­bém mandou instalar redes ao redor do edifício para impedir que outros funcionários se jo­­guem pela janela.

Com a morte de um funcionário, que se jogou pela janela do prédio da Foxconn em Shenzhen na terça-feira, subiu para 10 os sui­­cídios desde janeiro dentro do fabricante de componentes eletrônicos. Outros dois que tentaram se jogar pela janela sofreram ferimentos graves. O presidente e fundador do grupo, Terry Gou, pediu desculpas pelos episódios e prometeu fazer de tudo para salvar outras vidas, defendendo, no entanto, a prática de gestão do grupo, atribuindo as ocorrências a problemas pessoais dos funcionários.

A Apple indicou que está avaliando os esforços iniciados pela Foxconn. Para os grupos de defesa dos trabalhadores, a dramática série de suicídios nas fábricas do grupo taiwanês reflete as difíceis condições de vida de milhões de operários na China.

Comentários Politicamente (In)Corretos

Logo, logo o mundo vai pagar caro todas essas políticas de transferência de produção para a China. As corporações buscam a redução de custos, baseadas no controle total dos trabalhadores e no pagamento de salários rídiculos.

No ocidente civilizado, isso é chamado de semi-escravidão, para os empresários, lucros certos.

PS. Tem um grande empresário gaúcho, dono de um dos maiores grupos siderúrgicos do Brasil, fã de carteirinha do modelo político e econômico Chinês, eu sugiro exportá-lo

domingo, 30 de maio de 2010

As condições de trabalho na China - Escravos Pós Modernos - Parte 4

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Para quem vive comparando o modelo de crescimento chinês com o resto do mundo.

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Protestos na fábrica chinesa do iPad após 11º suicídio

A informação é do jornal inglês Telepraph, 25-05-2010.

Os manifestantes prestaram homenagens aos mortos em frente à sede da Foxconn, empresa chinesa que fabrica o IPad, após o 11º suicídio.

Li Hai, 19 anos, trabalhador da Foxconn, empresa que produz os iPads na China, atirou-se do telhado da fábrica. Uma onda de suicídios de trabalhadores tem alertado para as condições de trabalho na fábrica da Foxconn em Longhua, a maior do mundo, onde mais de 300 mil trabalhadores asseguram a fabricação de componentes para empresas como a Apple.

Os protestantes manifestaram-se à porta da fábrica conduzindo rituais funerários, incluindo as tradicionais oferendas aos mortos, após o 11ª suicídio este ano.

A morte de Li Hai surge dias depois de um trabalhador de 21 anos ter caído do quarto andar e dez dias após dois outros colegas também terem se atirado de outros andares do edifício. A Foxconn já afirmou que conseguiu prevenir 20 tentativas de suicídio este ano.

Lu Xin, de 24 anos, recém-licenciada, escreveu no seu diário pouco antes de se suicidar no dia 6 de Maio: “Vim para esta empresa por dinheiro, mas agora percebo que estou desperdiçando a minha vida, o meu futuro. Cometi um erro no primeiro passo da minha vida adulta. Estou perdida”.

As condições de trabalho na China - Escravos Pós Modernos - Parte 3

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Para quem vive comparando o modelo de crescimento chinês com o resto do mundo.

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Onda de suicídios expõe lado obscuro do milagre econômico chinês

A reportagem é de David Pilling, do Financial Times, e publicada pelo jornal Valor, 27-05-2010.

Uma jovem de 19 anos, operária da fábrica de eletrônicos Foxconn, próxima a Shenzhen, no sul da China, tornou-se a quarta empregada em duas semanas - e a nona neste ano - a saltar para a morte. Duas outras pessoas tentaram se matar mas não foram bem-sucedidas. Essa onda de suicídios, junto com uma investigação sobre a Foxconn feita pelo "Southern Weekly", uma publicação de Guangzhou, jogou luz sobre os recônditos sombrios do mundo industrial da China. Na semana passada, nove professores de ciências sociais escreveram uma carta aberta à Foxconn na qual questionam a sustentabilidade do papel da China como a "fábrica" do mundo.

Pouca gente já ouviu falar da Foxconn, apesar do fato de a companhia taiwanesa empregar um exército de 300 mil trabalhadores na fábrica de Longhua, onde os suicídios ocorreram. Mas a maior parte das pessoas já ouviu falar do iPad, da Apple, um das dezenas de aparelhos eletrônicos montados pela Foxconn. Também já ouviram falar de Sony, Dell e Nokia, algumas das companhias cujos consoles de jogos, câmeras digitais, telefones celulares e computadores a empresa de Taiwan é contratada para montar. Os empregados da Foxconn - que ganham em média US$ 75 pela semana de 60 horas de trabalho - conhecem bem essas marcas, embora poucos ou mesmo nenhum deles possa comprar os produtos.

O "Southern Weekly" enviou uma repórter de 22 anos disfarçada para trabalhar na fábrica da Foxconn próxima a Shenzhen, cidade trazida à vida por Deng Xiaoping, que em sua viagem pelo sul do país em 1992 declarou a China aberta aos negócios internacionais. Além do chão de fábrica, onde muitos empregados - vestindo capas e chapéus brancos idênticos - passam por turnos de 12 horas em suas estações de trabalho, o complexo do tamanho de uma cidade inclui dormitórios, lojas, restaurantes e até mesmo o seu corpo de bombeiros próprio. Agora tem também um serviço de apoio psicológico para os que pensam em se matar. Segundo a reportagem do "Southern Weekly", os operários se mostram acachapados pela monotonia dos trabalhos repetitivos, até mesmo andando e comendo ao ritmo do barulho das máquinas.

"Factory Girls" [Operárias, em tradução livre], o livro reportagem brilhante de Leslie Chang sobre mulheres migrantes, é bem sombrio em alguns pontos. Muitas fábricas tratam seus empregados como coisa, recusando-se a empregar gente por causa da altura, da feiura, da idade - 30 anos já é velho demais - ou simplesmente porque veio da Província "errada". Elas mandam as pessoas assumirem serviços mesmo que não estejam propriamente treinadas em máquinas que podem cortar dedos - o que às vezes realmente acontece. Exigem dos empregados muitas horas de trabalho, embora muitos fiquem felizes por algum pagamento extra. E seguram um mês de pagamento, para evitar que suas trabalhadoras achem um trabalho melhor ou mesmo um namorado em outra fábrica.

Mas essa não é toda a história. Cerca de 200 milhões de migrantes deixaram as áreas rurais em busca de uma vida melhor. Não são todos que podem ser enganados. No caso específico da Foxconn, é verdade que a recente onda de suicídios marca um crescimento acentuado em relação ao ano passado. Mas, como a fábrica emprega 300 mim pessoas, a taxa de suicídios é significativamente menor do que no geral. A China tem uma taxa de suicídio particularmente alta para mulheres.

No geral, os salários médios vêm superando a inflação nos últimos anos e as condições de trabalho vêm melhorando. Em 2008, a Província de Guangdong, no sul do país, na qual Shenzhen é uma zona especial, começou uma campanha para eliminar as piores fábricas, forçando o fechamento de metade de sua indústria de brinquedos (muitas delas se mudaram para Províncias mais pobres). Em março, Guangdong tornou-se a mais recente Província a aumentar o salário mínimo - no caso dela, em 20%. Na teoria, embora não provavelmente na prática, isso poderia aliviar a pressão para que as pessoas trabalhassem excessivamente, atrás de horas extras.

Ativistas de melhores condições de trabalho poderiam argumentar, com alguma justificativa, que essas seriam melhoras em relação a uma base dickensoniana [Charles Dickens, escritor britânico da era vitoriana, descreveu a miséria dos trabalhadores na Revolução Industrial]. Mas um lado da experiência dos migrantes que emerge de maneira forte do livro de Chang é o otimismo em relação à possibilidade de mobilidade social. As ondas recentes de migrantes têm ambições maiores do que os que os antecederam. Muitos pulam de trabalho em trabalho, procurando por algo melhor, ou colocam suas economias em imóveis e novos negócios (ou em esquemas de pirâmide também).

Esse senso de que há possibilidade de evoluir tem dois lados. Os migrantes geralmente esbarram na realidade. Conversas na internet também sugerem que está crescendo a raiva geral com a percepção de que muito da riqueza pessoal é fruto de corrupção, e não do trabalho. Mesmo assim, pesquisas sugerem que a crença no sonho chinês de ascensão social continua vivo. Em "O Mito do Vulcão Social", um livro baseado em extensa pesquisa, Martin King Whyte, professor de sociologia na Universidade Harvard, diz que há "uma expectativa otimista de que a alta da maré do desenvolvimento econômico está levantando todos os barcos". Os chineses mostram fé na capacidade de melhorarem suas próprias vidas, normalmente ultrapassando o otimismo de pesquisados em países capitalistas, incluindo os EUA. Esse senso de que é possível melhorar deve manter essa sedução por algum tempo.

As condições de trabalho na China - Escravos Pós Modernos - Parte 2

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Para quem vive comparando o modelo de crescimento chinês com o resto do mundo.

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Suicídios da Foxconn revelam as duras condições de trabalho na China

A reportagem é de Brice Pedroletti, publicada pelo jornal Le Monde e traduzida pelo portal Uol, 28-05-2010.

Conhecido por sua relutância em falar com a imprensa, Terry Gou, presidente do grupo taiwanês Foxconn, principal fabricante terceirizada mundial da Apple, mas também de outras marcas como Nokia, Dell e Sony, abriu na quarta-feira (26) as portas de sua fábrica de Longhua (província de Shenzhen) a dezenas de jornalistas da China, de Hong Kong e de Taiwan. Nesse local de montagem do iPhone (300 mil empregados), onze funcionários, dos quais o mais jovem tinha 16 anos, se suicidaram desde o início de 2010 jogando-se do alto dos edifícios da fábrica. Como uma zombaria mórbida da operação midiática organizada na quarta-feira, o último se matou na mesma noite.

Vindo de Taiwan em jato particular, Gou apresentou suas desculpas, ao mesmo tempo em que ressaltava que “o índice de suicídios em uma sociedade sobe junto com o aumento do PIB”. Ciente do impacto sobre a imagem de seus prestigiosos clientes, ele prometeu medidas drásticas. Redes já foram instaladas, haverá um maior número de psicólogos, e várias hotlines estarão à disposição dos operários.

Ele reconheceu que a circular distribuída aos empregados no dia 25 de maio, pedindo-lhes que se comprometessem a “não se machucar”, a “aceitar serem enviados ao hospital em casos de problemas mentais” e a não “processar a empresa fazendo exigências excessivas de indenizações”, tinha “uma forma grosseira”.

Estruturas essenciais da globalização, essas ECM (Electronic Contract Manufacturing), empresas terceirizadas encarregadas da montagem de produtos eletrônicos, operam em um ambiente econômico difícil. “Seus clientes sabiam quais eram seus custos de trabalho, e fazem estudos regulares sobre os preços de componentes. As ECM ficam sob fortes pressões, de qualidade, de confidencialidade, de prazo”, explica o representante de um fornecedor de componentes para a Foxconn. A fabricante de computadores Dell anunciou, na quinta-feira, que analisaria as condições de trabalho da Foxconn.

“Gestão militar”

Essa empresa é, segundo ele, “típica do gerenciamento à maneira taiwanesa: de um lado, um diretor superrígido, multibilionário e conhecido por suas traquinagens; de outro, uma forte pressão na fábrica, sem direito a erros, e uma gestão de estilo militar”. O grupo havia causado polêmica em 2006, após uma reportagem sobre as condições de vida em Longhua. Em julho de 2009, o suicídio de um empregado suspeito de ter roubado um iPhone, e perturbado pelo interrogatório e pelas revistas às quais diz ter sido submetido, desencadeou as críticas na internet e na mídia chinesa. O inquérito policial não permitiu determinar a responsabilidade da Foxconn.

Esses suicídios reavivaram a revolta contra a Foxconn. Em Hong Kong, ONGs como a Students and Scholars Against Corporate Misbehaviour (Sacom) organizaram, na terça-feira, um funeral simbólico diante da sede do grupo em Hong Kong. Segundo a Sacom, os operários da Foxconn sofrem uma forte pressão e se sentem isolados. Eles trabalham em média 12 horas por dia, com um salário de base mensal de 900 yuans (cerca de R$ 202), que chega a 2.000 yuans com as horas extras.

As condições de trabalho na China - Escravos Pós Modernos - Parte 1

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Para quem vive comparando o modelo de crescimento chinês com o resto do mundo.

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A reportagem é de Wieland Wagner, publicada pela revista Der Spiegel e traduzida pelo portal Uol, 30-05-2010.

Pouco depois das sete horas, meia hora antes do turno da manhã, jovens trabalhadores chineses passam por guardas uniformizados de cinza, pressionando suas identidades corporativas nos portões eletrônicos e esperando a luz verde. Depois, eles se apressam pelo labirinto cinza dos dormitórios e corredores da fábrica.

Cerca de 300.000 pessoas trabalham aqui, na cidade de Shenzhen, perto de Hong Kong, em um gigantesco complexo que pertence à firma taiwanesa Foxconn. Outras 120.000 pessoas trabalham em um complexo menor, a alguns blocos de distância. Elas montam produtos cultuados de marcas digitais mundiais como Apple, Nintendo e Dell, que vão desde o iPhone e iPad até notebooks. Muitos sacrificam sua saúde; outros, suas vidas.

Ma Xiangqian, 18, fazia parte deste peculiar mundo Foxconn, onde tudo é numerado: prédios, máquinas, componentes, produtos acabados e, é claro, pessoas. Por salários de até 1.940 yuans por mês (em torno de R$ 500), o jovem da província de Henan fazia turnos de 12 horas colocando peças plásticas em uma máquina que forma o corpo de computadores da Apple. Depois, ele ia dormir com nove colegas em um quarto de um dos muitos blocos de dormitórios no complexo da fábrica.

Certa manhã de janeiro, Ma apareceu morto perto da base de um desses prédios. Causa oficial da morte: “Queda de altura”.

Um total de 13 casos similares nas fábricas da Foxconn neste ano -10 fatais- produziram laudos similares.

A mais recente, no dia 26 de maio, ocorreu horas após uma visita à fábrica de Terry Gou, diretor da empresa dona da Foxconn.

Em julho de 2009, um técnico pulou para sua morte após ser suspeito de roubar um protótipo do iPhone.

Fábrica ou “campus”?

A série de aparentes tentativas de suicídio abalou a administração da maior fabricante de eletrônicos da China. Liu Kun, 40, que se diz diretor de relações com a mídia, anda com uma camisa suada. Ele evita a palavra “fábrica”, preferindo o termo “campus” – como se a Foxconn fosse uma universidade. Em um carrinho de golfe movido a bateria – guiado por Chen Hongfang, segundo no comando do sindicato da empresa, que é controlado pelo Partido Comunista - Liu mostra ao visitante as ruas ladeadas por palmeiras. Eles querem provar como é boa a vida dos operários.

Liu aponta orgulhosamente cada uma das lojas. Franquias de cadeias de fast-food; a cidade da Foxconn tem um hospital, onde os operários podem se tratar; há um campo de futebol, uma academia de ginástica, uma série de lanhouses, uma sala de ensaio para a trupe de dança da corporação. Monitores de televisão instalados nas ruas – ou nos refeitórios - passam programas de um canal de televisão corporativo.

Essas oportunidades de diversão não mudam o fato que os operários da Foxconn têm que passar suas vidas quase integralmente dentro complexo. Caminhão após caminhão entrega componentes e leva produtos acabados. Não há depósitos na Foxconn. Quando os operários montam um telefone celular ou laptop, o aparelho vai direto para os clientes. Esse fluxo de produtos não pode diminuir. Nas ruas da Foxconn, os trabalhadores têm permissão para andar lado a lado somente em pares. Se houver três pessoas, devem formar uma fila.

Regras fastidiosas

Ordem e organização são tudo, mesmo na cozinha da fábrica. O prédio cinza parece uma caixa e é tão anônimo quanto os outros. Por dentro, o ambiente é igualmente industrial. Um exército de cozinheiros com jalecos brancos e sapatos de borracha prepara refeições para os trabalhadores, supervisionados pelos gerentes da Foxconn por uma enorme parede de monitores. Há regras fastigiosas em cada nível, inclusive no uso de ingredientes, lavagem de pratos, frituras, fervuras e assados. Todos os dias, os cozinheiros fazem três toneladas de porco, três toneladas de frango, 60.000 ovos e 20 toneladas de arroz.

Se você quiser sair da cozinha, tem que lavar as mãos. Só depois disso a porta se abre. Os prédios de dormitórios cinzentos têm 5 a 12 andares, e também ali os trabalhadores têm que passar seus crachás de identidade pelos aparelhos de controle antes de poderem sair.

Os diretores da Foxconn não sabem dizer se o tamanho gigantesco da fábrica não é um fator que abala a psique dos trabalhadores. O tamanho, afinal, garante poucas despesas e altos lucros – ao menos de acordo com Steve Chu, 49, taiwanês responsável por um dos prédios de vários andares da fábrica. Novecentos trabalhadores trabalham em apenas um andar.

Os homens e mulheres uniformizados de jalecos e quepes brancos são proibidos de ter conversas pessoais. Essa regra está impressa em seus crachás de identidade corporativa. Só o que se ouve são os assobios das máquinas nas quais inserem placas de circuito verdes para laptops ou leitores de cartão de crédito. Em oito esteiras rolantes, eles terminam o trabalho de oito produtos diferentes para vários mercados mundiais.

“O diabo está nos detalhes!”

O gerente Chu e seus supervisores de linha de montagem estimulam os operários infatigavelmente para que sejam mais precisos e eficientes. Até os degraus nas escadas foram enfeitados com frases de advertência: “O diabo está nos detalhes!” ou “a oportunidade aguarda os que estão preparados!”

As máximas motivadoras são inspiradas por Terry Gou, 59, fundador da Hon Hai Precision Industry, proprietária da Foxconn. Os trabalhadores adotaram o apelido respeitoso de “Lao Gou” (ou “velho Gou”) para o carismático bilionário que evita a imprensa. Sua família fugiu dos comunistas chineses para o Taiwan em 1949.

Ele construiu seu império 36 anos atrás com uma fábrica de botões para mudar o canal de televisores preto-e-branco. Parte de seu capital inicial de US$ 7.500 foi emprestado por sua mãe. Mais tarde, ele produziu entradas para conectores de computadores e, em 1988, ele abriu sua primeira fábrica de salários baixos na China continental.

Agora, a Foxconn, junto com outros gigantes taiwaneses, é fornecedora de enormes setores da indústria de eletrônicos e produz telefones celulares e laptops para marcas mundiais. A Foxconn emprega 800.000 pessoas em toda a China e contratou 150.000 novos trabalhadores na primavera.

Contudo, os incidentes recentes com mortos e feridos geraram críticas mesmo dentro da China, e surgiram questionamentos sobre como a firma produz seus produtos eletrônicos de ponta. A família da vítima Ma Xiangqian quer processar a Foxconn para que explique as mortes de seus operários.

Tormento brutal

É uma batalha desigual. No início do ano, Ma Zishan, 58, e sua mulher, Gao Chaoyin, 49, cultivavam árvores. Agora, dividem um quarto perto da fábrica da Foxconn com duas de suas três filhas. Eles dormem em colchões de palha. A única decoração é um retrato do filho morto que, segundo a tradição de Confúcio, levava as esperanças de futuro da família. “Foxconn, diga a verdade”, escreveu o pai em letras pretas em torno da foto. “Minha vida perdeu o sentido”, diz ele.

A filha mais jovem, Liqun, 22, e seu namorado também trabalhavam na Foxconn até recentemente. Eles se demitiram para lutar contra o colosso taiwanês.

Liqun viu seu irmão pela última vez seis dias antes dele morrer. “Ele estava animado”, diz ela, “porque tinha acabado de se demitir”. Ela acrescenta que um gerente de produção vinha atormentando-o brutalmente após a quebra de uma furadeira em sua máquina. Como punição, Xiangqian tinha que limpar as latrinas.

Encostados nas do quarto estão os cartazes usados pela família para protestar nos portões da fábrica. Com fotos ampliadas do corpo de Xiangqian, eles querem chamar atenção para as inconsistências da história de sua morte. Sua irmã Liqun conta ter visto ferimentos na cabeça do defunto – que pareciam como se tivessem sido feitas por uma furadeira. Ela também achou estranhas feridas em seu dorso, que não sugerem suicídio. As gravações da câmera de vigilância da Foxconn da hora da morte do trabalhador sumiram.

“Doença do espírito”

Ma e suas filhas falam cautelosamente e parecem tímidos. Eles evitam culpar diretamente a poderosa Foxconn, mas insistem que a situação deve ser esclarecida. Eles querem questionar na justiça o relatório oficial de sua morte.

O porta-voz da fábrica, Liu, contudo, reage com indignação às perguntas sobre o caso de Ma. Ele parece satisfeito com a autópsia oficial. “Em quem você acredita? Na Foxconn ou na família de Ma?”, pergunta.

Liu acrescenta que os operários da fábrica nunca têm que limpar latrinas – afinal, os faxineiros fazem isso. É claro que pode haver acidentes trágicos com alguns dos 420.000 trabalhadores em Shenzhen, diz ele. As pessoas sofrem com problemas pessoais, dores amorosas, saudade de casa, comida diferente. “Ou doenças do espírito”, diz Liu, levantando um dedo. Um trabalhador que recentemente se jogou da escada sofria de complexo de perseguição, diz ele, acrescentando que a mão-de-obra atual, cuja maior parte tem perto de 20 anos, é mais vulnerável do que as gerações anteriores.

A visita de Terry Gou nesta semana não conseguiu calar as críticas. Ele negou que as mortes recentes se devessem às condições de trabalho da Foxconn. Horas depois, um operário de 23 anos em um complexo diferente da empresa, no Noroeste da China, caiu para sua morte de um dormitório. E na quinta-feira, um homem de 25 anos teria tentado suicídio cortando-se, mas sobreviveu.

Pressão internacional?

Uma tempestade foi gerada por um vídeo recente divulgado na Internet chinesa, que supostamente mostrava guardas de segurança em uma fábrica da Foxconn em Pequim chutando e batendo nos funcionários. Wang Tongxin, autoridade sindical, advertiu que o fornecedor tem que demonstrar mais respeito pelo povo jovem chinês que trabalha em suas fábricas. Após a morte do técnico do iPhone no ano passado, a Apple veio a público: “Exigimos que nossos fornecedores tratem seus trabalhadores com respeito e dignidade”.

O porta-voz da empresa, Liu, fica feliz em mostrar aos visitantes do centro de “saúde mental” de sua fábrica. Um terapeuta atende um funcionário e cartazes vermelhos adornam as fachadas de alguns dormitórios, estimulando as pessoas a cuidarem umas das outras.

Dentro dos prédios residenciais, porém, os trabalhadores continuam suas vidas de acordo com a lógica da produção de baixo custo. Em quartos cheios com 10 camas, metade dos moradores estão deitados exaustos em seus colchões. Alguns dos que acham apertado demais aqui estão esticados diante das televisões penduradas nas escadas. Cada recreio é precioso: logo terão que voltar para seus turnos de 12 horas.

terça-feira, 23 de março de 2010

Por um estado realmente laico

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Somos, constitucionalmente, um estado laico que não deveria permitir as demonstrações de crendices, de todos os tipos, em suas ações e em suas instituições.

Apesar disso, crentes de diversas superstições, em especial os chamados cristãos, de uma forma ou de outra, tentam impor sua "fé", nas funções, nas ações de estado e em nossas consciências e comportamentos.

Em 4 de agosto de 2009, o Ministério Público de São Paulo, ajuizou, corretamente, uma ação pedindo a retirada de simbolos religiosos das repartições públicas. Quando então, o frade Demétrius dos Santos da Silva, se manifestou:

Abaixo a posição do padre e depois os comentários inteligentes do jornalista Ney Gastal.
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A carta do padre

Sou Padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de São Paulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas…
Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião.
A Cruz deve ser retirada!
Aliás, nunca gostei de ver a Cruz em Tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são barganhadas, vendidas e compradas;
Não quero mais ver a Cruz nas Câmaras legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte;
Não quero ver, também, a Cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados;
Não quero ver, muito menos, a Cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas pobres morrem sem atendimento;
É preciso retirar a Cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa das desgraças; das misérias e sofrimentos dos pequenos; dos pobres e dos menos
favorecidos.
Frade Demetrius dos Santos Silva
São Paulo/SP – 27.02.2010.
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Os comentários de Ney Gastal

Então tá.
Vamos ver.
A cruz é um logotipo de marketing.
É um símbolo simples, de fácil aceitação.
Um risco sobre outro.
Tem um pequeno defeito, em termos de comunicação visual.
É estático. Parado.
Bem ao contrário da suástica, que existe há milhares de anos e na origem nada tem a ver com o nazismo.
A suástica - também um tipo de cruz - é móvel.
Assim como a suástica, na origem, nada tem a ver com o nazismo, a cruz nada tem a ver com o Cristo vivo.
O símbolo de Jesus vivo era a palma, a folha da palmeira.
Ele a usava em contraponto a águia do Império Romano.
Ele a usava como alternativa à espada.
Os primeiros cristãos, após a crucificação, trocaram a palma pelo peixe.
Enquanto a igreja primitiva seguiu os ensinamentos de Jesus, seu símbolo foi este.
Foi só quando virou uma estrutura borocrática pesada e armada (a espada) que ela resolveu adotar outro símbolo, mais forte.
A águia, outra águia?
Seria demais.
Tomaram de uma pomba (lincando ao Velho Testamento, o dilúvio, Noé, etc) para representar o Espírito Santo.
E, no lugar da espada com que se armava, a Igreja deu de mão na cruz, que até é parecida.
Pronto.
Estava completo o abandono de toda e qualquer vinculação com os ensinamentos de Jesus.
Desde então, a Igreja Católica é um poder secular, uma estrutura burocrática, uma nação com a cabeça nas nuvens.

O Brasil é um estado laico.
Mais do que não dever, não pode ter símbolos religiosos em prédios públicos.
Nenhum, quanto menos apenas um.
A argumentação perigosamente cínica de frei Demétrius poderia nos levar a outras tantas, do mesmo baixo quilate.
Tipo assim:
Não gosto de ver a cruz em nome da qual a Inquisição torturou e matou através de "julgamentos" forjados em nossos tribunais.
Não gosto de ver a cruz em nome da qual os cruzados semearam o ódio que até hoje grassa no Oriente Médio em nossas repartições públicas.
Não gosto de ver a cruz em nome da qual milhares de livros foram indexados, proibidos e queimados em nossas escolas.
Não gosto de ver a cruz que representa o Vaticano, um estado imerso em riquezas, em nossos prontos-socorros e hospitais, onde pessoas pobres morrem sem atendimento.
Não gosto de ver a cruz na qual a burocracia da Igreja crucificou a doutrina de Jesus sequer nas igrejas de nosso país.
Tenho certeza de que o próprio Jesus também não gostaria.
Mas todos estes argumentos seriam tão perigosamente cínicos quanto os de frei Demétrius.
Então não vou usá-los.
Vou apenas me limitar a dizer que a Igreja Católica Apostólica Romana (e as outras) não é em nada diferente, nos defeitos, ao Estado Brasileiro.
É apenas muito mais antiga e tem muito mais prática na trampolinagem.
Por isso, melhor será que cada um trate mais de seus assuntos e respeite mais os dos outros.
Afinal, pelo menos até onde se saiba, ainda não há na cúpula do Estado Brasileiro o hábito repetido e frequente da pedofilia.
Não é?

Ney Gastal

PS: Curiosidade. No grego clássico em que se baseiam as traduções da Bíblia (não, o original mais antigo conhecido não é em aramaico) está escrito que Jesus foi morto no stauros (stau.rós), ou "estaca de tortura". Esta era a forma usual de execução dos romanos, uma estaca vertical, sem sequer travessa no topo, quanto mais cruzada um pouco acima da metade. Não existe, no texto sagrado original nem nos textos de Josephus, historiador romano que tratou do assunto, qualquer referência à palavra ou ao objeto "cruz". Esta, como o Cristo loiro de olhos azuis em plena Galiléia, são criações da Igreja Católica em suas encomendas de quadros e manipulação de traduções. Ou seja, símbolos de marketing (em um tempo onde esta expressão ainda não existia) para vender melhor um produto entre a população européia.
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