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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Clima, certeza e (in)segurança

Os negacionistas da mudança do clima, maldenominados "céticos", têm certeza de que, se ela existir, não foi causada pelo homem --ou não merece ser combatida. Para negar a necessidade de adotar um tratado internacional para reduzir a emissão de gases do efeito estufa, coisa que na sua convicção destruiria a livre iniciativa e daria poder demais aos governos, lançam dúvidas sobre a ciência do aquecimento global.

Quanto mais dúvida, melhor. Quem se arriscaria a adotar políticas custosas com base em informação questionável?

A negociação internacional sobre o tema saiu dos trilhos em Copenhague, no final de 2009. Parece pouco provável que volte a eles daqui a seis meses, em Cancún. O fracasso não foi, porém, obra exclusiva dos negacionistas.

Isso apesar de todo o barulho que conseguiram fazer com os e-mails furtados do caso "Climagate". E, também, com o erro constrangedor, porém menor, encontrado no Quarto Relatório de Avaliação do IPCC (AR4), sobre a descabida previsão de que as geleiras do Himalaia derreteriam até 2030.

Não, o que está paralisando a negociação é o bom e velho conflito Norte-Sul. Ele se encontra agora agravado pelo fato de que a crise financeira mundial está afetando muito mais o Norte que o Sul (embora China e Índia fiquem no hemisfério Norte e fosse mais correto falar em conflito Oeste-Leste).

No máximo se pode dizer que os negacionistas deram contribuição significativa para o retrocesso sofrido, nos EUA, pela noção de aquecimento global antropogênico (causado pelo homem) - ou "AGA", para encurtar. Antes do derramamento de óleo no Golfo do México, 50% dos americanos davam mais importância ao fornecimento de energia do que ao ambiente (43%), uma inversão do que vinha ocorrendo nos últimos nove anos.


Gallup

Toda a discussão interminável levantada pelos negacionistas, no entanto, poderá tornar-se obsoleta em breve. É provável até que espada capaz de cortar o nó górdio atado por eles nem seja desembainhada pela ciência do clima, mas sim pela atmosfera no mundo dos negócios.

Assim como fracassam em convencer seus pares na academia, é quase certo que ficarão falando sozinhos também diante dos capitalistas pelos quais lançaram sua cruzada. Em seu lugar, começaria a atacar o pessoal que mais entende de risco, as companhias seguradoras.

Não tenho simpatia especial por elas, mas ouvi com atenção o que Ernst Rauch, da multinacional Munich Re, tem para dizer. Foi uma das últimas mesas-redondas do Fórum Global de Mídia da Deutsche Welle (uma espécie de BBC alemã), em Bonn, na semana passada. A Munich Re é uma das maiores empresas do mundo em resseguros, ou seja, uma seguradora de seguradoras.


MunichRe

Rauch falou várias coisas interessantes, mas a que mais chamou a atenção está no gráfico acima. Como é provável que a legenda não fique muito legível, saiba que se trata de catástrofes naturais registradas entre 1980 e 2009.

A primeira coisa a assinalar é que a quantidade de desastres pelo menos dobrou, em três décadas. Saltou da casa dos 400 por ano, no início dos anos 1980, para a faixa de mais de 800 na segunda metade da década atual.

Note, agora, o que aconteceu com as barrinhas vermelhas. Apesar da oscilação, percebe-se que se mantiveram, de forma consistente, abaixo de cem catástrofes por ano. Elas representam os eventos geofísicos, como terremotos, tsunamis e erupções vulcânicas.

Apesar da tendência popular a associar tais tragédias à mudança climática, uma coisa nada a tem a ver com a outra. Os vendavais que sacodem a atmosfera e destroem milhares de vidas humanas não fazem nem cócegas na litosfera, crosta dura sobre a qual levamos nossas vidas insignificantes.

O que aumentou, mesmo, foram as barras verdes (tempestades), azuis (enchentes e deslizamentos) e amarelas (extremos de temperatura, secas e incêndios florestais). Todos eles eventos previstos para aumentar em frequência com a mudança do clima.

Quer isso dizer que são causados pelo AGA? Não necessariamente. Nenhum climatologista sério se arriscará a relacionar causalmente cada um desses eventos - como as enchentes da semana passada no Nordeste - com o aquecimento. Mas seria bom se eles começassem a dizer com mais ênfase que o aumento é, pelo menos, compatível com as previsões do IPCC.

E mesmo que não fossem, isso seria razão para deixar de agir? O pessoal da Munich Re acha que não. Pouco importa se os desastres são fruto do AGA ou não, se os danos a serem ressarcidos por seguros estiverem aumentando, seja por que razão for.

A mesma lógica cautelosa deveria aplicar-se aos governos. Não faz sentido esperar por um grau elevado e indefinido de certeza da ciência do clima para começar a preparar sua população e sua infraestrutura para o que parece uma tendência clara (veja a linha negra do gráfico). O dano potencial pode ser muito maior que o investimento na prevenção.

O Brasil mal começou a estudar a sério esse que talvez seja o capítulo mais importante de toda a discussão sobre mudança climática: adaptação. Um primeiro estudo sobre a vulnerabilidade da Região Metropolitana de São Paulo a enchentes foi lançado há poucas semanas. O país precisa de muito mais dessas avaliações, mesmo que seja só para mostrar que cheias e deslizamentos não são meras fatalidades da natureza, imprevisíveis por definição.

Entra governo, sai governo, e as áreas de risco não são mapeadas direito. As pessoas continuam morrendo arrastadas por enxurradas ou soterradas em lama.

Ao lançarem mais e mais dúvidas sobre a mudança do clima, os negacionistas - talvez inadvertidamente - contribuem para fixar a percepção de que nada se pode fazer a respeito. E, assim, ajudam a perpetuar a insegurança da população mais pobre. Com certeza não é essa sua intenção.


sábado, 19 de dezembro de 2009

Climatologistas sob pressão, Editoria da revista Nature.

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O editorial da Nature comentado o roubos dos e-mails dos cientistas britânicos, as razões e as implicações, deixando claro quem tem interesse em criar uma falsa fraude.

Editorial

Nature 462, 545 (3 December 2009) | doi:10.1038/462545a; Published online 2 December 2009

Climatologists under pressure

Abstract

Stolen e-mails have revealed no scientific conspiracy, but do highlight ways in which climate researchers could be better supported in the face of public scrutiny.

The e-mail archives stolen last month from the Climatic Research Unit at the University of East Anglia (UEA), UK, have been greeted by the climate-change-denialist fringe as a propaganda windfall (see page 551). To these denialists, the scientists' scathing remarks about certain controversial palaeoclimate reconstructions qualify as the proverbial 'smoking gun': proof that mainstream climate researchers have systematically conspired to suppress evidence contradicting their doctrine that humans are warming the globe.

This paranoid interpretation would be laughable were it not for the fact that obstructionist politicians in the US Senate will probably use it next year as an excuse to stiffen their opposition to the country's much needed climate bill. Nothing in the e-mails undermines the scientific case that global warming is real — or that human activities are almost certainly the cause. That case is supported by multiple, robust lines of evidence, including several that are completely independent of the climate reconstructions debated in the e-mails.

First, Earth's cryosphere is changing as one would expect in a warming climate. These changes include glacier retreat, thinning and areal reduction of Arctic sea ice, reductions in permafrost and accelerated loss of mass from the Greenland and Antarctic ice sheets. Second, the global sea level is rising. The rise is caused in part by water pouring in from melting glaciers and ice sheets, but also by thermal expansion as the oceans warm. Third, decades of biological data on blooming dates and the like suggest that spring is arriving earlier each year.

Denialists often maintain that these changes are just a symptom of natural climate variability. But when climate modellers test this assertion by running their simulations with greenhouse gases such as carbon dioxide held fixed, the results bear little resemblance to the observed warming. The strong implication is that increased greenhouse-gas emissions have played an important part in recent warming, meaning that curbing the world's voracious appetite for carbon is essential (see pages 568 and 570).
Mail trail

A fair reading of the e-mails reveals nothing to support the denialists' conspiracy theories. In one of the more controversial exchanges, UEA scientists sharply criticized the quality of two papers that question the uniqueness of recent global warming (S. McIntyre and R. McKitrick Energy Environ. 14, 751–771; 2003 and W. Soon and S. Baliunas Clim. Res. 23, 89–110; 2003) and vowed to keep at least the first paper out of the upcoming Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Whatever the e-mail authors may have said to one another in (supposed) privacy, however, what matters is how they acted. And the fact is that, in the end, neither they nor the IPCC suppressed anything: when the assessment report was published in 2007 it referenced and discussed both papers.

If there are benefits to the e-mail theft, one is to highlight yet again the harassment that denialists inflict on some climate-change researchers, often in the form of endless, time-consuming demands for information under the US and UK Freedom of Information Acts. Governments and institutions need to provide tangible assistance for researchers facing such a burden.

The e-mail theft also highlights how difficult it can be for climate researchers to follow the canons of scientific openness, which require them to make public the data on which they base their conclusions. This is best done via open online archives, such as the ones maintained by the IPCC (http://www.ipcc-data.org) and the US National Climatic Data Center (http://www.ncdc.noaa.gov/oa/ncdc.html).
Tricky business

But for much crucial information the reality is very different. Researchers are barred from publicly releasing meteorological data from many countries owing to contractual restrictions. Moreover, in countries such as Germany, France and the United Kingdom, the national meteorological services will provide data sets only when researchers specifically request them, and only after a significant delay. The lack of standard formats can also make it hard to compare and integrate data from different sources. Every aspect of this situation needs to change: if the current episode does not spur meteorological services to improve researchers' ease of access, governments should force them to do so.

The stolen e-mails have prompted queries about whether Nature will investigate some of the researchers' own papers. One e-mail talked of displaying the data using a 'trick' — slang for a clever (and legitimate) technique, but a word that denialists have used to accuse the researchers of fabricating their results. It is Nature's policy to investigate such matters if there are substantive reasons for concern, but nothing we have seen so far in the e-mails qualifies.

The UEA responded too slowly to the eruption of coverage in the media, but deserves credit for now being publicly supportive of the integrity of its scientists while also holding an independent investigation of its researchers' compliance with Britain's freedom of information requirements (see http://go.nature.com/zRBXRP).

In the end, what the UEA e-mails really show is that scientists are human beings — and that unrelenting opposition to their work can goad them to the limits of tolerance, and tempt them to act in ways that undermine scientific values. Yet it is precisely in such circumstances that researchers should strive to act and communicate professionally, and make their data and methods available to others, lest they provide their worst critics with ammunition. After all, the pressures the UEA e-mailers experienced may be nothing compared with what will emerge as the United States debates a climate bill next year, and denialists use every means at their disposal to undermine trust in scientists and science.

Copenhagem e Clima, uma farsa previsível

Do Jornal o Estadão de 18 de dezembro

Mario Cesar Flores

Almirante reformado e ex comandante da Marinha

A declaração atribuída à ex-ministra Marina Silva de que "a sociedade precisa exigir urgência" (Estado, 29/11), referida à questão ambiental, sugere uma dúvida: a urgência a ser exigida teria motivação homogênea?

Vivemos num mundo em parte desenvolvido, rico e consumista e, em grande parte, em desenvolvimento ou subdesenvolvido e pobre. Essa grande parte aspira à ascensão ao consumismo, identificado como símbolo de cidadania pela propaganda que o sustenta. Ascensão praticamente inviável sem danos ao meio ambiente: as demandas de 7 bilhões de habitantes - e crescendo a 10 bilhões em alguns decênios mais -, dramaticamente críticas as de alimentação e energia, comprometem necessariamente a natureza. Muito ou pouco, em consonância com o maior ou menor cuidado humano, mas comprometem. Medidas disciplinadoras e inovações tecnológicas podem moderar o ritmo do comprometimento, mas não o eliminam.

Voltando à frase atribuída à ex-ministra: a grande parte da população global pretendente à ascensão socioeconômica prefere urgência para a melhora de sua vida ou urgência para as medidas redutoras dos danos ao meio ambiente? Prefere urgência para menos carros, menos DVDs e TVs, menos empregos, menos consumo de energia, menos degradação ambiental e menos poluição, ou prefere urgência para a melhora de vida a curto prazo, na contramão de tudo isso?

Manifestações como as de Copenhague não refletem o anseio da humanidade completa: embora à sombra da retórica ambientalista, grande parte dela hierarquiza compreensivelmente suas necessidades presentes - reais (alimentação, por exemplo) ou criadas pela paroxística propaganda da economia moderna - acima da ameaça ambiental de maior prazo. A respeito das manifestações cabe aqui uma observação instigante: elas são praticadas por pessoas em confortável nível de bem-estar no paradigma consumista, que não teria como se sustentar caso a contenção do descalabro por elas preconizado viesse a ser "para valer"...! Estariam aqueles manifestantes sinceramente propensos a abdicar de seu padrão de vida, alcançado no modelo que retoricamente condenam?

Soam mal as posições peremptórias do tipo "os ricos têm que..." Afinal, estamos todos no mesmo barco, sob ameaça do mesmo temporal, que já vem soprando ventos preocupantes. E soa mal a vociferação da culpa alheia como justificativa de erros próprios - algo assim como justificar a destruição da selva amazônica porque a Europa destruiu a "floresta negra". É justo que o preço dos rumos redutores da ameaça - preço do corte da emissão de gases, da inovação tecnológica e outros - recaia em maior proporção nos países desenvolvidos e ricos, porque estará incidindo sobre um padrão de vida mais alto, mas isso não significa orgia livre para os pobres ou remediados, o Brasil entre eles.

Há nesse imbróglio - o que fazer/qual o sacrifício, quem deve pagar - um detalhe imperativo e complexo, curiosamente omitido da discussão: a interveniência crítica da política democrática no processo. Sempre careceu de fundamento realista a expectativa de que tudo se resolveria com a chegada a Copenhague dos presidentes e chefes de governo: se líderes de democracias, poderiam eles acordar benevolamente medidas corretivas de descalabros ambientais que repercutissem no (des)emprego, nos anseios e no bem-estar imediato dos seus povos? Suas decisões poderiam ser indiferentes ao sistema homologatório inerente à democracia, às eleições? Estariam eles e suas correntes políticas propensos a aceitar perder a próxima eleição, em proveito da defesa de um futuro ambiental em que já serão página virada, na política?

É improvável: a lógica e a dinâmica da democracia não corroboram essa hipótese. Por judiciosos que sejam os políticos - o que não é regra geral -, na política democrática a pressão da conveniência imediata do eleitor que vota hoje tende a prevalecer sobre o interesse virtual do eleitor que ainda não nasceu, sobre a ideia de ameaça ao mundo natural e à civilização que nele construímos - ameaça de fato amedrontadora, a ser concretizada ao longo de um futuro talvez não longínquo, mas posterior à próxima eleição... As manifestações ao estilo Copenhague não significam aval eleitoral ao sacrifício. Havia nelas destituídos e pretendentes à ascensão, de inexorável custo ambiental, maciçamente influentes no mercado eleitoral do mundo subdesenvolvido e em desenvolvimento?

A ameaça ambiental merece atenção e cuidado, mas no fundo ela não entusiasma decisivamente quem luta agora para sobreviver, quem pretende ascender agora no modelo socioeconômico que criamos, caracterizado pelo consumismo comprometedor da natureza! Ou quem simplesmente vive muito bem nele e assim quer continuar, embora esbravejando hipocritamente cuidados ambientais que, se levados a cabo, implicariam moderação de seu padrão de vida. Enfim: poucos, se tanto, discordam da existência do macroproblema ambiental, e já existe realmente razoável consenso global quanto à necessidade de contenção do descalabro em curso, mas o consenso ocorre no diagnóstico, não chega à medicação, cujos custos caberiam sempre aos outros... Na hora do pagamento prepondera o interesse imediato, que se reflete no campo político-eleitoral.

Esta é a realidade política: a sustentabilidade sadia da natureza e com ela a do futuro de maior prazo da humanidade compele a alguma provação hoje, que, por sua vez, induz turbulência política no curto prazo: no mundo democrático, impor privação ao povo, por mais que a lógica e a sensatez a recomendem, significa risco político-eleitoral. Daí a tendência a "empurrar" o preço para os outros: estar-se-á assim simultaneamente salvando o mundo ambiental e, em casa, não comprometendo a próxima eleição... Resolver a equação do presente político x futuro ambiental, com justiça e democracia, é um desafio que vivemos hoje.